domingo, 2 de março de 2008

Todo o amor que houver nessa vida II

Douglas Santarelli

Eu quero a graça de um amor bem vivido,
Tão tranqüilo,
Aquele porto seguro e abrigo,
Com seu gosto no pedaço mordido da fruta,
Uma salada embebida nos teus lábios,
Nós, na batida, no embalo da rede,
Jogando conversa fora,
Matando a sede na saliva,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
Para minha pequena.
Andar descalços na areia da praia,
O vento forte batendo ,
Nos acariciando junto com as águas,
Um pouco de poesia para nos iluminar em março,
E algum bocado pra dar garantia,
E ser o que somos sem medo de ser felizes,
Sem precisar temer,
Um instante de refrigério no nosso dia,
Coisas corriqueiras,
Momentos de quebra da monotonia,
Pra poesia escrita e falada,
Se transformar na nossa estrada a ser construída,
Com argamassa divina,
Tijolos unidos,
Na paz,
E nas brigas,
Transformar o tato numa maneira de te ver,
Te olhar com as mãos,
Te ouvir com os lábios,
Te amar confunde os meus sentidos,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
E minha querida,
Já não me espanto com o veneno,
De quem não cria,
E se eu achar a sua fonte escondida,
Jogo uma moeda e te desejo para sempre,
Feche os olhos bem apertados,
Te alcanço em cheio o mel e a ferida,
A dor e o prazer,
Guerreando em nossos corpos,
Que já não querem mais ser metade,
E inteiro te arrastando aos poucos,
Boca nua e a tua,
Me marcando todo,
Eu todo através de você,
Em você,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
Brincando com os dias,
Lutando por que eles são maus,
Meu remédio que me dá alegria,
Uma guria jóia pra amar,
Pensando bem a frente eu já te insistia,
Quando sentei sozinho na cadeira de balanço,
Uma angústia me bateu,
Tão vazia,
Eu tinha escrito algo,
Mas não me lembro,
Minha grafia tão incompleta,
Esperando por alguma coisa que não sei dizer,
Triste deixei as lágrimas me denunciarem,
Bem mansinho pra ninguém me ouvir,
Um passeio no parque,
Só nós e o mundo todo pra trás,
Ser teu sangue, sua bebida,
Todo amor que houver nessa vida,
Intensamente,
Pensando em você,
O telefone grita no silêncio da casa,
Minha saudade na linha,
Eu querendo me transportar,
Uma música toca ao fundo,
No fundo,
Eu tinha pensando em te fazer uma serenata,
Mas não sei cantar,
Sou desafinado como o pato da bossa,
Estou querendo saber do anular,
Querendo que chegue logo o sim,
Por favor não me peça pra parar,
Não posso evitar,
Todo esse amor que sinto por sua vida,
Enquanto houver vida e depois da partida,
Ser teu coração, suas batidas,
Te carregar no colo,
As escadarias de toda via,
Minha fantasia que não escondo pra você,
Te desenhar com o pensamento,
E te modelar com as mãos,
O papel tem ficado tão em branco ultimamente,
Perdi a chave do cadeado,
Os versos têm saído pelas frestas,
Tão minguados, tão tímidos,
Tive o impulso de te pegar,
Te levar sei lá pra onde,
E ser teu dia e tua noite,
Te aquecer e te esfriar,
As tuas mãos,
Esquecidas nas minhas,
Tão minhas que já não podem se separar,
Ser teu coração, suas batidas,
Todo amor que houver nessa vida,
E quando já estivermos com o tempo contra nós,
Vamos sentar juntos debaixo de uma árvore,
Só sombra e água fresca,
E vamos contar e rir das histórias de nós dois,

Ser teu pão, ser tua comida
Ser seu sangue, sua bebida
Pegue nos meus pulsos e se sinta

Pra minha linda
Todo amor que houver nessa vida
E depois da partida ser seu coração, suas batidas.


22.09.2000