sábado, 1 de março de 2008

Hoje à noite o meu coração é seu...

Douglas Santarelli

Hoje à noite o luar vai ser diferente,

Sua Poesia vai estar mais perto de mim.

E talvez eu já seja uma parte tua,

Um coração pede ao outro coração,

Um cantinho nesse peito que se dilata,

Eu já vi todo o sofrimento,

Eu me descobri gente sentindo o peso dos velhos nas calçadas,

Dos pedintes miseráveis,

Das crianças de rua que suscitam raiva e misericórdia em nós,

Mas meu amor hoje à noite o luar vai ser diferente do diferente a que já nos acostumamos,

Eu podia ficar te contando a nossa história,

E blá, blá, blá,

Só que eu estou querendo te dizer algo novo,

Pra acrescentar,

Meu coração fica pequeno e cabe numa forma quando longe de você,

Eu nunca entendi bem essa coisa,

Mas sei que te amo,

E é isso que conta,

Eu podia te levar no cinema,

Mas a aula me impede,

Amor hoje não é feriado para nós,

Você vai ficar em casa trabalhando e eu vou sentir a tua falta,

Trabalhando,

Um coração pede um toque de outro coração,

Eu cresci com o teu abraço e hoje é difícil não ter essa sensação de aconchego,

De abrigo,

Meu amor hoje á noite o luar vai diferente,

A lua vai nos seguir a noite inteira,

E de repente você vai me perceber,

E eu vou te perceber,

Mesmo longe,

Colados um no outro,

Eu tinha uma jóia pra falar,

Mas já nem me lembro,

Algumas coisas não precisam ser ditas,

Outras não devem ser ditas nunca,

É que, meu amor,

Um coração precisa estar brilhando em seu peito,

Por isso feche os olhos,

E se deixe conduzir,

A poesia se esconde entre nossos lábios,

Hoje á noite o coração vai pulsar mais forte,

E num repente uma dorzinha de saudade vai bater,

Construindo um novo viver,

Pra entender tudo isso que eu digo precisa ser você,

Captando as batidas do meu coração pequeno,

Hoje á noite o luar vai ser diferente,

Eu vou te entregar algo,

Que vai ser seu pra sempre,

A nossa amizade e o nosso amor vão ficar mais fortes,

Vai ter um pacto e um símbolo,

Que você vai carregar,

E só os cegos não vão ver que o nosso luar é sempre diferente.

Do de toda essa gente que passa por nós sem nos conhecer,

E quando você olhar pra lua,

Ou pro sol num dia em que a tarde for diferente,

Lembre-se que meu coração é seu pra sempre.

14/08/00

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ontem...

Douglas Santarelli

Ontem...
Sempre ontem...
Eu vi na sarjeta da cidade,
De vitrines bonitas e brilhantes,
A mão pedinte,
Estendida e sem vida,
Nos seus olhos não havia luz,
Havia gritos,
Nascidos não da minha roupa bem vestida,
Mas da sina de não se ter o que comer,
Ou de não se poder comer o desperdício dos outros.

Eu passo todos os dias pela fome,
Sem lhe saciar,
Talvez por que sendo bicho homem,
Desaprendi a comungar,
Canto todos os dias que o Brasil precisa mudar,
Mas a verdade é que sou todo vitrine e luzes e câmera e ação,
Meu coração é fechado,
É ruína, espírito abatido,
No íntimo,
sou pobre menino mendigo.

Hoje,
Que mais parece o eterno ontem,
Eu vi na sarjeta da cidade vertical e vibrante,
A overdose no sangue do trabalhador,
O desespero a que se chega de ver a família da gente,
Pedindo o pão quente,
Quando não se tem nem o pão duro para esfarelar,
Quando se faz da doença do pobre,
O sistema único de saúde para a elite prosperar,
Dóem as minhas vistas,
Mas o jejum da empatia eu não aprendi a praticar,
Vivo com outros homens e com eles até busco a Deus,
Mas sou o que sou,
A comunidade de um homem só,
Agoniado,
Mas sempre mascarado com a pintura das vaidades.

Amanhã eu não sei o que será,
O que meus olhos verão na cidade convidativa e festiva?
Esse encanto triste,
Talvez seja o menino que vai deixar de ser criança,
Para que nasça o bandido...

Cantem os tiros, os desassossegos,
A mentira das classes,
A tela jornalística que canta o discurso arranjado da pseudo-paz,
E nos bastidores vota a violência institucionalizada,
Cantem! Gritem!

Enquanto isso no silêncio,
No burburinho do dia,
E no calar da noite,
O Cristo crucificado-glorificado virá...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O beco

Douglas Santarelli

A minha poesia é um beco estranho,
É uma caminhada de silêncio,
E de mãos dadas vou entrecortando o caminho de vales,
Que ainda serão planos,
Mas por que planar o caminho,
Se a vida,
É ela mesma,
Vale, planície, montanha e abismo?

Eu me tornei o meu estranho,
Eu que sonhei com a infindável beleza da igualdade.
Quantos de mim existem?
Pelo menos uns quatro ou cinco,
Além destes há ainda aqueles de mim que subsistem e se projetam nos outros.

O beco é um olhar perdido nos corredores de um labirinto chamado existência,
Suas paredes são sólidas como o amor,
E suas armadilhas difíceis de desviar,
Difícil é também se desvencilhar do sofrimento, da agonia, da indiferença,
Neste momento eu sou todo tormento e euforia,
Nem mesmo sei quem sou ou o que faço,
Sei que prossigo,
E prosseguir muitas vezes é engano.

Penso no beco...
Sua estranheza me causa espanto,
Espanto de quê?!
De não descansar,
Quando o momento é de descanso,
Lucidez!

O beco é estranho,
Mas minha poesia ainda o traduz,
Por isso quando eu morrer não quero que os homens chorem,
Pois vou estar rindo com Deus,
Depois de ter atravessado o inusitado-inevitável beco,
Meu estranho beco,
Na desejada Cidade do Amém,
Estarei envolvido por ternos braços,
Nos braços do Reino da luz.

07.09.2004

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Por quês

Douglas Santarelli

Algum dia haverei de morrer,
Qual seja não sei,
Sei que chegará,
Se está próximo ou não, quem sabe?
Quem sabe o que é próximo e o que é distante?

Não consigo ser quem eu quero,
E esse desespero de não ser,
Me mata um pouco mais a cada dia,
E o que é o dia ou a noite?
Existirão?

Existo eu se não sou quem eu quero ou deveria ser?
Algum dia haverei de morrer,
E que me importa isso,
Se tudo que me ensinaram foi viver?
Mesmo que teimosamente, viver?

E nesse viver me fica corroendo a dúvida,
Algum dia nasci?
E se nasci, "por quês"?


03/12/2004

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dias (o deserto de ser humano)

Douglas Santarelli

Houveram dias em que meu coração perturbado parecia querer se fechar para a possibilidade da intervenção divina,
dias negros,
em que eu me sentia um não sei o quê,
A gente às vezes diz um não sei o quê,
Por não saber o que se é,
ou por se temer o que se é,
Nesses dias eu tinha uma vontade estranha de querer resolver logo,
ou de sumir logo do mundo,
mas sumir não seria a solução,
visto que a agonia de não existir ou de não se ter agonia deve ser muito mais agonizante do que sofrer a agonia desses dias negros,
estive nesse tempo um tanto quanto filósofo errante,
errante por não saber dizer claramente o que sentia ou pensava ou vivia,
nesses dias a caneta e o teclado me eram repugnantes,
por revelarem a minha incapacidade de criar na escuridão,
por revelarem um ser humano que continua falhando nos pontos iniciais,
sentindo uma vontade de gritar, de me expressar,
afogado no trabalho,
a máquina que não pode parar continuava a trabalhar na máquina que não trabalha por si só,
Nessas épocas,
mesmo me entregando ao trabalho como um irracional,
o tempo era meu inimigo e não passava,
revelando minha superficialidade e falta de dependência,
no entanto a escravidão ao medo é o que mais me incomodava,
eu queria ser valente,
perfeitamente corajoso,
mas aquilo na garganta,
um nó,
ficava ali me dizendo que eu não era aquela muralha,
e a angústia ardia no peito,
cheguei a pensar que se isso fosse ser humano,
então não queria mais,
acontece um dia na vida da gente,
de parecermos crianças birrentas,
e eu me sentia meio assim,
querendo espernear, gritar e fazer birra,
para não sentir mais aquilo que eu sentia,
Acontece um tempo,
em que a sós,
descobrimos quem somos,
tempo terrível de dor e medo,
mas é desse tempo que vem a bonança,
a esperança de nascer de novo,
e ser o novo homem,
mas dói até poder dizer:
Eis-me aqui,
E se aqui for deserto,
meu deserto é o meu maior tesouro!


05.07.2002

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Sem você

Douglas Santarelli – 18/12/2006

Um calor do cão, um frio de rachar
Nesse nosso mundo tudo parece fora do lugar,
É estranho que se diga isso,

Mas chegou o eterno tempo,
Onde verão e inverno já não não são mais,
E aqui sem você,
Tudo parece estar fora do lugar
É uma sensação difícil de explicar,

Talvez seja saudade,
Além do que os dicionários podem delinear,

Mas meu bem, dicionários não sentem,
Palavras não sustentam essa coisa aguda em meu peito,
Só sei que tudo aqui parece estar fora do lugar
O dia, a noite,

Meu mundo virou desde que para o novo mundo você rumou,
É estranho que se diga isso,
Logo nós que sempre vimos o sol juntos,
E rimos abraçados para a lua,
E agora nem isso,
Pois em nossos mundos distantes,
Só é possível que seja dia para um,

E é por isso que eu te digo que os quatro elementos,
Terra, fogo, água e ar,

Conspiram contra nós,
Meu amor,
Sem você fica tudo fora do lugar

E nessa luta em que se perde para algo encontrar,
É que me descobri,
Como no tempo em que se podia dizer que ainda havia verões passados,
E invernos gelados,
No campo de batalhas com a armadura da saudade viva,

Deus fez-me ressuscitar,
Lembrei-me das casas em que mal vivemos, da boa comida que jamais faltou para compartilhar,
E quando a espada ergui,
Em seu reflexo eu pude ver mais que sentir,
Nossa cama repartida,
O enlace de nossas vidas,
A eternidade em nós dois,
E foi isso que me fez revelar,

Olá, bom dia, aí talvez já seja noite,
O meu nome é enganado,
O eterno “menino” vindo de outros tempos,

Mas que insiste em chegar sempre no horário,
Eu sou como um cachorro que corre contra cavalos,
Como pássaros que voam dentro de um buraco,
Não sei mais se te dou boa noite ou bom dia,
Mas muito prazer, meu nome é enganado,
Por andar na contramão pessoas vivem tentando me tirar do páreo,
Não sou puro sangue e já puxei muita carroça,
Nesse nosso mundo estranho,
O trabalho é um prazer cada vez mais raro,
O mundo é visto de uma mira de balas,
Invadem a terra dos outros sem nada a declarar,
Já nem enterram as pessoas mais na terra que um dia há de comer,
O mundo mudou seu curso natural,

Corpos espalhados pelo chão e paraísos dilacerados,
Crianças com as lágrimas nas mãos,
Mas quem sou eu,
Senão um enganado,
Um “peão” fora do tablado,
Nesse mundo de grandes negócios, eu nem sou um pequeno empresário,
Ei, posso te chamar novamente de meu amor?
E antes que você me pergunte quem eu sou,
Muito prazer, meu é enganado,

Só por que amei mais do que devia as causas dos marginalizados,
Mas, tudo bem... até pode ser que o que eu chame de cavaleiros do apocalipse não passem de homens,

No entanto, a verdade é que eles nunca deixarão de ser os senhores da fome, da peste, da guerra e da morte,
Tudo bem... seja como for,
Mas que seja sempre por amor às causas dos perdidos,
Tudo bem... até pode ser que o que eu chame de cavaleiros do apocalipse não passem de homens,
Mas saiba que estarei sempre aqui para te servir e te dar as boas vindas em cada retorno seu,

E se for por amor às causas perdidas,
Saiba que nossas vidas não vão ser um dia esquecidas,

Mas sobre o nome que eu tenho,
Prefiro ser um “enganado” como me chamam,
Do que um ser humano ilhado em suas próprias pretensões,

E quando penso em você,
Sei que você vai retornar,

E seu beijo vai ser a porta de entrada do paraíso pelo qual eu tanto oro,
Eu que tantas vezes em você toquei o céu,
A bandeira da Jerusalém Celestial tremula na sacada do meu coração,
No nosso templo não há caça e caçador,
Só nós e um lindo menino saindo para jantar,
A fila do cinema, o desenho começa a rolar,
Fala de família,

Ei meu amor
Tudo aqui parece estar fora do lugar
A bússola não para de rodar,
O sul, o norte,
Os quatro elementos
Sem você tudo está fora do lugar,

As coisas ficam dessaranjadas,
Sem você tudo fica...
Fora de foco, difícil de enxergar,

Procuro os óculos,
Mas eu não uso mais...
Meu amor, sem você tudo fica fora do lugar
Fora de si...demorado de se aguentar

E quando a gente tenta
De toda maneira
Do amor se guardar
Ele é um Sentimento ilhado
Que parece muitas vezes estar morto e amordaçado, mas que volta a incomodar...

E é só por amor às causas que sempre dizem que estão perdidas,
Que a Trindade fez de nós um cordão,
E é só por amor que escrevo nesses dias,
A sua poesia,

E quem sabe por que foi por amor se lembrem dos casais há muitos esquecidos,

Abelardo e Heloísa,
Dom Quixote e Dulcinéia,

Dante Alighieri e Beatriz,

Jesus e a Igreja...

E um dia por amor às causas que dizem que estão perdidas...

Eu e você.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Só sei que te amo

Douglas Santarelli

O mundo é mesmo uma grande massa inconjunta de desonestidades,
Nele não se pode soletrar, sem sobressaltos, no coração, palavras doces,
Alguma coisa me aconteceu desde o dia em que deixei de ser dia,
Minha poesia foi-se e em seu lugar ficou a boca seca,
Sem saliva, sem nada para saciar,
O mundo tornou-se esterco,
Mas quem disse que esterco não cheira bem?
Quando eu era menino pensava nas coisas do campo;

Nunca gostei do campo,
Mas pensava nos cavalos e eles me remetiam ao esterco,
Minha felicidade era quando via cavalos pela cidade grande,
Que sem descrição alguma perfumavam a cidade com seu lúgubre fedor,
Essas coisas são estranhas de se dizer em um poema de amor,
Mas para onde foi o bem-querer em um mundo que vive de olho por olho e dente por dente?
Algumas vezes quando pensava em quem seria você,
Eu me perguntava quem eu teria de ser,
E me dói a descoberta da ignorância que inquieta os meus versos,

Sei que te amo,
E só isso é que posso te afirmar,
Mas quem te ama não sei,
Eu não me sei mais,
Algumas noites já acordei suado e vivo com a impressão de que eu sou você,
De que somos tão misturados,
Que na vida não se pode pensar em dois seres,
Somos um micro-cosmo de ardência, desejo, paixão, libido e carinho,
Somos um cordão,
Foi em um dia de sábado que o criador nos fez,
Ele fez que fez,
Modelando bem devagar,
Soprou vida e riu,
E seu riso leve fez-se gargalhada,
E Deus tomou um copo de vinho e brindou à boa obra que fizera,
Mas o mundo...
Esse mundo velho sem porteira...
Ah! Esse não tem jeito.
Vai sempre enterrando o amor e falando da realidade,
Como se as duas coisas não fossem as mesmas,
Minha poesia se estranhou,
E preciso novamente te dizer que só sei o fato de te amar,
Errando, mas amando,
Desenfreado, mas amando,
Estonteado, mas amando assim mesmo,
Quando te amo sinto que sou alguém,
Que ainda tenho possibilidades,
Que tem jeito para mim, enfim...
Fora de ti, não há mim...
Meu amor,
Não existe eu ou tu,
Só o nós, e isso nos basta,
E ser nós é amar...
Lá fora o vento soprou e um menino nasceu,
Ele é a prova viva de que somos verdadeiros, de que existimos somente um no outro,
A lua está cheia,
E o vento soprou...
Levando um beijo meu a ti,
Um beijo que já existia em ti,
Por que somos um.


18.12.2006