sábado, 23 de fevereiro de 2008

De todas as maneiras II


Douglas Santarelli

De todas as maneiras,
verdadeiras que há de amar,
Nós já nos amamos,
Como meninos que fomos com nossos sonhos,
Com toda a nossa pretensiosa maturidade,
Nos amamos ao ponto das loucuras mais diversas,
Na medida em que se entornou o amor divino em nós,
O gozo eterno de uma paixão que se tornou coisa de gente grande,
Pra gente aprender que amar de verdade é coisa de gente pequena,
Nos amamos ao ponto de estarmos o mais perto de Deus: reproduzimos o dom da vida,
Amamos a pele,
A carne,
A alma,
Usamos todos os sentidos,
Amamos com o espírito,
De todas as maneiras um amor prometido,
Um amor vivido,
De todas as maneiras que há de amar,
Do romantismo quase medieval à intensidade e agressividade pós-moderna,

Nos amamos com todas as palavras feitas pra sangrar,
Já nos cortamos com os olhares amargos e com a impaciência sem explicação,
Com as discussões que prometemos que nunca haveriam de vir,
Nos amamos ao ponto de quase colocar um ponto final,
Com todas as lágrimas e todo silêncio mal interpretados,
Nos cortamos querendo com isso que o sangue um do outro nos aproximasse mais,
Nos machucamos querendo carinho,
Buscando sentido,
Procurando entender onde estão os dois garotos que prometeram tantas coisas no altar,

E agora já passa da hora,
O céu estrelado,
Tá lindo lá fora,
Larga a minha mão,
E me toma por completo,
Me possui por que eu sou seu por toda a vida,

Solta as unhas do meu coração,
Ele é só seu mesmo,

E está apressado para te amar,
Para quase parar com a alegria desvairada do gozo celestial que nos invade quando nos tornamos um,
Esse coração que desanda a bater desvairado
Quando entra o teu verão,
Quando toda a sua paisagem é tão somente florida,
Quando seu beijo é minha taça de vinho,
Quando você mesma se torna a minha vinha,
E agora já passa da hora,
O silêncio me deixa ouvir a sua respiração,
Descompassada, ardente, viva...

De todas as maneiras que há de amar,
Já nos machucamos com todas as palavras que há para humilhar,
Nos afagamos com todas as palavras que há para exaltar,
E agora já é nossa hora,
E todas as horas serão,
E esse dia que nos marca com a religião do nosso ‘SIM’ diante do Deus vivo,
É mais um dia que a Poesia escreveu,
Então eu sei que tá lindo lá fora,
Mas fica aqui mesmo,
Dentro de mim,
Onde ainda é quente por sua causa,
E onde será sempre um porto seguro para você,
Pega na minha mão e me deixa te dar a direção,
Deixa suas unhas no meu coração,
Pra ele sangrar e te marcar,
E aí eu vou saber que você é sempre minha,

De todas as maneiras já nos amamos,
Na proximidade e na distância,
Na fome e saciados,
Na paz e na ignorância,

De todas as maneiras somos um do outro,
É só você me olhar e vai ver sua imagem de braços abertos pra te receber,
É só olhar meus olhos e vai encontrar neles os seus,
É só ser você que eu continuarei a existir em ti,
De todas as maneiras...

25.05.07 (06 anos de casamento)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Lázaro

Douglas Henrique Santarelli Menezes

Você vive, de repente em um mundo que por breve tempo se desfaz,
Na multidão de sorrisos e alegrias.

Quando se caminha pela rua,
é possível ouvir uma voz que fala insistentemente,
é estranho identificá-la como sua;
Ela está lá dentro e não quer sair,
apenas quer gritar e ser ouvida.

Você vai andando,
e pouco importa se é dia ou noite,
sempre há um breu te envolvendo,
existe uma caverna de horrores dentro de você,
e por algum motivo ela está escancarada,
ela é o lar do outo você,
a casa mal-assombrada jamais apresentada para o mundo,
o anti-cartão postal,
a feiúra que desconstrói a sua beleza maquiada,
a mentira que confronta suas meias verdades,
a soberba que expõe a sua pseudo-humildade,

No entanto, você vive em mundo que por breve tempo existe e logo se desfaz,
é um mundo que em um repente se torna assustador,
e você acorda e precisa aceitar que é o seu mundo!
Você então decide sair por aí,
você precisa relaxar,
mas a noite tem 24 horas,
a lagoa não cheira bem,
o asfalto está esburacado,
os ônibus estão incendiados,
as crianças estão sendo assassinadas,
você para e vê tudo,
e não sabe por que está chorando,
talvez seja por que o mundo é uma caverna de horrores de todos os lados,
você cai de joelhos em frangalhos,
por que você se enxerga lá fora e isso dói,
e a verdade é que a dor não vai passar.

A caverna de horrores é assombrosamente honesta,
e mutilado você caminha,
para onde, por que e para que, já não parecem importar,
tudo o que resta é caminhar,
apenas caminhar,
e a lua já não ilumina,
e as estrelas estão apagadas,
e a natureza está gemendo dilacerada,
e as relações humanas jazem falsificadas,
é de adoecer perceber que a caverna sempre esteve em você,
mesmo aquela que você dizia estar nos outros,
é deprimente ver que os outros são o seu reflexo,
já não há dia,
nem sol,
nem saída,
só a sua podridão assistida,
e de repente você vê a si mesmo como é,
mas ao mesmo tempo se nega a acreditar,
dura caverna de horrores...

A suas orações não passam de genuflexões farisaicas dirigidas a um Deus sobre o qual você tem dúvidas,
o seu canto não passa de música de chuveiro,
os seus gestos são automatizados,
você é um número,
um cadastro,
uma cifra,
um cifrão.

Você tenta fugir da estrada e caminha até chegar a uma casa sagrada,
e diante do altar,
sentado em um dos bancos,
algo te corrói,
não há comunhão,
não há partilhar de bens,
não há afinidade na oração,
você fica confuso,
é estranho dizer... mas cinco pães e dois peixinhos não parecem mais bastar,
onde está o homem-deus que andou sobre as águas?

Você de repente desperta,
o mundo é uma imensa caverna,
e em meio à sua incredulidade,
você se pergunta no que a igreja crê,
você...
tão horrível...
tão desprezível...
você...
sua visão turva enxerga a fatídica verdade de que a santidade mudou de casa,
você então perde a esperança da cura,
você que busca o remédio descobre que não há mais bálsamo em Gileade,
e então caminha...
não há palavras a serem ditas,
e mesmo que houvessem todas seriam vazias,
e você vive em um mundo de brevidade,
que tão rápido se desfaz,
vem dessa forma, a lembrança da época em que você andava de mãos dadas,
não há mais mãos para segurar,
não há mais olhos para com os seus cruzar,
não há mais corpos para abraçar,
não há mais bocas, ouvidos, narizes...
e você caminha,
você, o quase ateu,
em uma busca covarde por Deus,
você, o menino da igreja que tratou Deus como dono de empresa,
agora você precisa acreditar,
você quer,
é sua saída... (não há saída).

Você fala e Deus parece não escutar,
você grita e a sua voz ecoa na caverna de horrores,
e você se contorce em dores...
a verdade sobre você , sobre o impostor, surge somatiza em cada um dos seus órgãos,
o seu coração é um recanto de inveja, orgulho e mentira,
o seu intestino é abjeto como a sua vontade de ter além do necessário,
o seu pulmão é negro como a cirrose da traição,
seu estômago é volumoso como a sua luxúria,
sua cabeça e pensamentos são tão desenfreados como a sua ira,
seus braços são punhais e sua pernas perdição.

O mundo estão tão escuro,
talvez seja ele seu nítido retrato,
já não há luz para acender,
água boa de se beber,
e com fome e sede você caminha,
nem estrada há mais,
apenas uma pequena e tão apertada trilha,
a escuridão nesse lugar te faz lembrar mais de você,
você que já não anda,
se arrasta,
tudo o que pode é reconhecer que ser “ser-humano” cansa,
depois de um tempo,
um misto de náusea, angústia e depressão te possuem,
além da caverna de horrores,
muito além da caverna de horrores que você é,
ao longe,
uma fagulha de luz te mostra que o seu fim,
o fim da trilha,
o lugar de onde não dá para passar,
acaba em uma caverna,
sem sol,
sem chuva,
sem lua,
sem estrelas,
sem vida,
você já nem se pergunta que mal pode haver nisso,
com um ar tranquilo você se aproxima,
e lá você percebe que sempre é possível descer um nível além do qual se está,
tudo o que você descobre,
é que aquele buraco que você bem poderia chamar de lar,
está putrefato,
tem o cheiro da morte,
você está em um cemitério,
em uma cova,
sentado ao lado de um morto,
você chega a se questionar se o cheiro da morte é seu ou dele,
e então chora sem esperança alguma,
sua vida não tem sentido,
você está vivo no seu velório,
condenado a ser um zumbi,
tudo o que você quer é sair dali,
mas ali pode ser você,
No entanto, se arrastando e trocando os pés pelas mão você saí do sepulcro,
e lá fora é tão vazio quanto dentro do seu ser,
a eterna noite sem lua,
suas pernas estão pesadas,
seu corpo não te obedece,
em agonia você se senta,
coloca a cabeça entre as pernas,
e rompe em soluços e lágrimas,
o mundo está todo em suas costas,
o pior... você está em suas costas,
você... o seu maior peso,
você olha olha para a caverna do morto,
mas é mais podre que aquele lugar,
não existe outra caverna de horrores a não ser a que está dentro de você,
de repente tudo fica claro,
você é podre, imundo, sujo e tenebroso,
você...
o vaidoso, o mentiroso, o adúltero,
o ladrão, o invejoso, o iracundo,
o rebelde, o fofoqueiro, o covarde,
o idólatra, o feiticeiro, o glutão,
o soberbo, o egoísta, o incrédulo,
o devorador de pecados,
o poço de horrores,
com dificuldades você se levanta,
decide viver enterrado,
você quer a caverna dos mortos,
pé após pé você chega lá,
e tudo escurece... não há morto!
Você se pergunta se não foi uma projeção da sua própria vida,
mas que vida?
Você parte em busca de alguém,
do inteligível, da explicação,
mas na noite fria em que sua vida se tornou,
só há o mistério insondável de todas as coisas,
você está cansado das máscaras e papéis que desenvolveu,
você se rende e finalmente aceita que não é um bom menino,
não é tão corajoso ou honesto,
verdadeiro ou santo,
amoroso ou compreensivo,
você não é tão família como costuma dizer,
cada aceitação é um processo cirúrgico sem anestesia que dilacera seu ego,
finalmente você aceita que algo te machuca,
você não é tão forte,
não é de ferro,
parece mais um castelo de cartas que desmoronou,
e tudo se acaba...
sua nudez está exposta diante de todos...
mas pela primeira vez você não quer fugir.

Então em meio às suas sombras ele aparece,
o morto ao seu lado,
o verbo ressuscitado,
o jardineiro fiel,
você não entende nada,
mas seus olhos se encontram com os dele,
as palavras se tornam obsoletas,
as justificativas não mais existem,
de pé vocês andam lado a lado,
só aquela presença inexplicável te basta,
em um primeiro momento pouco importa saber o destino da caminhada,
a realidade é que agora está tudo bem,
e o jardineiro fiel está te levando de volta para o jardim,
a sua casa jamais conhecida,
o seu único lar,
a sua cidade amada,
tudo agora está claro,
tudo é paz,
ao seu lado o jardineiro caminha...


fevereiro/março 2007

Terra Prometida

Douglas Henrique Santarelli Menezes

O meu nome é “EU SOU”,
e tenho tantos outros que qualquer homem diante da minha glória se arrepia,
quando criei esse mundo grande do qual EU SOU a porteira,
nunca houve no céu tanta festa e alegria,
e se vosmecês pensam que me deixei levar por tanta euforia,
aí é que se enganam,
criar o mundo e tudo que nele há,
sol, lua, estrela, terra, mar, animais, árvores, a humanidade e tudo mais,
é coisa que exige esforço e dedicação,
ainda mais quando se projeta a obra magnífica para seis dias,
e para arrematar como o bom artista que sou,
deixei pro fim a obra-prima,
reguei a terra com minhas lágrimas,
e nela meti as mãos,
fiz barro que foi uma sujeira só,
mas lá no fim estava ele, o homem,
olhei pra'ele e inda uma coisa faltava,
é bem verdade que o cabra comigo se parecia,
aquilo me deu um baita orgulho,
vejam só, a minha imagem refletida na minha obra-prima,
fiquei tão engrandecido com tudo aquilo que ali se passava,
que enchi meus pulmões com ar,
que o meu sopro foi quase uma ventania,
e quando o vento virou brisa estava o homem cheio da minha vida,
e Eu disse cá comigo,
agora descansarei,
no entanto não resistia,
todas as tardes trocava uma prosa com o cabra que criei,
e antes que vossas imaginações criem asas,
foi num jardim que o plantei,
fica lá pras bandas do sertão,
e desde já vos asseguro que nem com mapa do tesouro o encontrarão,
e agora o que vou lhes contar,
é com pesar e decepção,
estavam lá o homem e sua mulher cuidando da criação,
e tendo sempre du'bão,
quando o tinhoso-cão lhes fez uma proposta de cabra da peste,
“dão só uma mordida nesse gerimum”, disse ele,
“que vocês vão ser como aquele que os criou, donos de tudo, até do agreste”
nem tempo se deram para pensar,
e desde aquele dia o meu sopro de vida começou a neles vazar,
e é assim que a morte,
bem como a fome, a peste, a doença e todo tipo de mal se tornou uma sina pra todo homem carregar,
e agora ouçam o que lhes digo,
se vocês perguntarem para mim o nome de todos homens que há,
sei dar conta de cada um deles,
até dos que ainda estão para respirar,
no entanto, para fins de demonstrar pra onde leva a desobediência,
um só sobrenome para todos há,
“Pecadinos”,
mas que nenhum quer abraçar,
e desde a queda são todos “pecadinos” na vida,
iguais em tudo na sua triste sina,
morrendo cada qual de morte igual,
seja ela na emboscada, na peixeira, na espingarda, na granada, de doença ou até natural,
e se não se achegam a mim ainda tem o agravante da morte espiritual,
mas, agora, sem mais delongas,
vos peço licença para mostrar a trajetória de um cabra minguado do sertão,
o nome não importa,
por isso vamos dar a ele o sobrenome que lhe cabe nesta vida,
eis aí diante de vós a peregrinação de “pecadino” da silva!

Desde que nasceu o cabra inda menino tinha na cuca uma idéia sem igual,
“vou sair desta terra onde a sina é trabalhar de sol a sol”,
queria vida melhor e se possível sem tanto suor,
mas o fato é que a vida foi passando e “pecadino” de menino se tornou homem do bem crescidinho,
e um dia sem ninguém avisar fez uma trouxa de roupa e se pôs a caminhar,
andou, andou, andou...
tinha plano traçado: “é no sudeste, cidade grande que quero chegar,
lá minha estrapiada vida vai com certeza mudar”,
e “pecadino” anda,
sua triste sina é como os outros homens se arrastar,
e o dinheiro acaba,
na estrada carona não há,
“pecadino” às vezes por falta de comida passa a “variar”,
mas quem tem um sonho não deixa ele pesadelo se tornar,
o homem com a roupa suja e a esperança embotada pára para descansar,
e descansando ele vê que está perto de um bar,
lá, “pecadino”, vê que o ser humano tem índole má,
prostituição infantil, prostituição de tudo o que é jeito que há,
homem bebendo de cair, outros aproveitando pra roubar,
e foi meio de desespero, meio de teimosia que ele se pôs a levantar,
olhou pro céu, um sol de rachar,
pensou consigo mesmo,
“vou me por a andar por que quanto antes isso fizer no meu destino vou chegar”,
o que “pecadino” não sabia é que EU, supremo criador,
escrevo certo em linhas curvas de “BRS” tortas,
e foi assim que ele um dia sem saber por que, nem pra que entrou numa igreja onde todo [pessoal falava umas línguas estranhas que nem dava pra entender,
e sentado no banco, “pecadino”, é despertado por uma proposta do homem de Deus,
pergunta mais simples não pode ter,
“quem aqui aceita Jesus, o único que o pode salvar”?
Ele levanta a mão e pela primeira vez descobre que até cabra macho, diante de meu filho, não consegue não chorar,
disseram a “pecadino” que agora ele tinha um novo coração,
isso era coisa que não dava pra ele entender não,
mas com uma afirmativa de cabeça ele faz assentimento,
conta pro pastor que está indo pro sudeste nova vida começar,
o homem de Deus ri e lhe diz que agora ele é cidadão da cidade mais bonita que há,
“pecadino” olha com estranheza como quem não entende o que se passa,
o pastor, então, lhe fala de uma tal “Jerusalém Celestial”,
cidade tão bonita com ruas feitas de pedras preciosas, ouro, prata e do melhor material que [há,
diz ainda o homem que lá não há dor, nem choro, nem morte,
e que todo cidadão de lá é imortal,
“pecadino” sorri ao pensar em lugar tão descomunal,
e se sente mais forte,
veja só, ele agora é um imortal,
ele se despede e segue a sua sina,
no caminho para o sudeste uma mulher prenha ele pára pra ajudar,
quando era menino muito parto viu,
e agora na estrada só com um pouco d'água,
é a sua vez de fazer mais uma criança vir ao mundo e berrar,
o nome da mãe não pode ser mais comum,
“Maria”, grita ela do fundo de sua dor,
“pecadino” pede a ela que faça força pois o rebento para fora quer pular,
e depois de hora,
ele diz a ela que nasceu menino,
“Qual nome quer lhe dar”?
Ela diz, ainda gemendo, “Emmanuel, pois nome melhor não há,
é que eu quero sentir que Nosso Senhor perto de mim está”,
“pecadino” se emociona e diz: “Então feito está, Emmanuel ele vai se chamar”,
e num gesto de engraçada onipotência ele levanta o bebê no ar,
e conta pro mundo que ele nasceu,
e se volta pra mim e com certa intimidade se põe a orar,
e no fim da sua oração ele me diz: “Todo-Poderoso toma que o filho é teu”,
e “pecadino” mal sabia que nessa oração maior verdade não há.

Um dia chega a São Paulo,
depois de muito tempo vagar,
consegue numa favela morar,
ele se sente pequeno,
a gente da cidade grande olha pra ele com cara desconfiada, outros nem são capazes de o enxergar,
no morro ele vê toda tristeza que o mundo pode dar,
traficante, ladrão, assassino, e polícia corrupta querendo a droga e o morro controlar,
“pecadino” vê muita morte besta,
mas ele não quer desistir,
“Com Jesus, Nosso Senhor” ele sempre pensa “a sorte um dia há de me sorrir”,
“pecadino” é gente boa,
na favela ninguém tem nada para dele reclamar,
e foi numa sexta-feira santa bem de madruga que o emprego finalmente acaba por lhe acenar,
trabalho honesto,
Ele pensa, “uma família agora posso criar”,
mas acontece que ao sair da firma,
um tiroteio arrebenta por lá,
e uma bala perdidamente traiçoeira acaba por o acertar,
vai direto pro coração,
a fonte da vida,
“pecadino” tomba no chão, o sangue a escoar,
ele só tem tempo pra uma frase deixar,
“está ficando escuro, agora eu vou mais é descansar, Deus meu, Deus meu, logo agora que a [minha sorte ia mudar”?

Pra “pecadino” nem funeral há,
é enterrado numa vala comum,
sua morte não é registrada por qualquer presente,
sua sorte é até na morte ser pequeno, nada mais que um mulecote,
a única terra que lhe coube na vida é esta,
sete palmos, dois metros de comprimento por um de largura,
mas o que “pecadino” não sabia era que só depois da sua morte sua sorte ia mudar,
aquela cidade que o homem de Deus havia falado existe e é lá que ele foi parar,
vestido todo de branco como todos por lá,
alguém lhe sorri e diz que seu nome “pecadino” não é mais,
e ele ganha um novo nome,
que de tão bonito nem dá para falar,
e ao se tocar ele sente a eternidade dentro de si,
e ao coro bonito quer se juntar,
pois só cantam música da boa em tudo que é língua que há e o bacana é que todo mundo se entende por lá,
“Santo, Santo, Santo”, ninguém para de cantar,
e quando ele levanta a cabeça um Homem ele passa a avistar,
o cabra é bonito e dele sai uma luz quase de cegar,
é tanta paz que dá até vontade de pular,
a impressão que tem é que ele já viu o moço em algum lugar,
e quando ele pergunta, a resposta que lhe vem é de assombrar,
“Emmanuel é o Deus que conosco aqui sempre está”,
e num instante a realidade se põe a girar,
e quando pára ele pensa ter visto o bebezinho da estrada no “Santo EU SOU” a lhe acenar,
e sua alegria é mais radiante,
na Jerusalém Celestial ele caminha por ruas jamais sonhadas,
e nada em rios que transmitem vida pura,
galardão é o que mais há,
e na sua imortalidade ele é contente,
Eu, o Dono da vida, sou-lhe sempre presente,
Ele é cidadão e todos o enxergam,
ainda que ele seja servo pequeno por demais,
ele tem um nome tão bonito que nem dá pra contar,
e tudo o que ele faz é o joelhos dobrar,
ele que sonhou em trabalho e descanso,
agora só quer se por a cantar,
“Santo, Santo, Santo é o Emmanuel que comigo sempre está”,
e EU do meu alto e sublime trono fico a contemplar,
e é com um certo orgulho mal disfarçado que me ponho a pensar,
“e não é que o meu menino do sertão seu sonho conseguiu realizar”?
Depois das sua peregrinações e andanças pela Terra,
na Grande Cidade ele conseguiu chegar...

2004-2007 (poesia escrita nesse intervalo de tempo)