Douglas Henrique Santarelli Menezes
Você vive, de repente em um mundo que por breve tempo se desfaz,
Na multidão de sorrisos e alegrias.
Quando se caminha pela rua,
é possível ouvir uma voz que fala insistentemente,
é estranho identificá-la como sua;
Ela está lá dentro e não quer sair,
apenas quer gritar e ser ouvida.
Você vai andando,
e pouco importa se é dia ou noite,
sempre há um breu te envolvendo,
existe uma caverna de horrores dentro de você,
e por algum motivo ela está escancarada,
ela é o lar do outo você,
a casa mal-assombrada jamais apresentada para o mundo,
o anti-cartão postal,
a feiúra que desconstrói a sua beleza maquiada,
a mentira que confronta suas meias verdades,
a soberba que expõe a sua pseudo-humildade,
No entanto, você vive em mundo que por breve tempo existe e logo se desfaz,
é um mundo que em um repente se torna assustador,
e você acorda e precisa aceitar que é o seu mundo!
Você então decide sair por aí,
você precisa relaxar,
mas a noite tem 24 horas,
a lagoa não cheira bem,
o asfalto está esburacado,
os ônibus estão incendiados,
as crianças estão sendo assassinadas,
você para e vê tudo,
e não sabe por que está chorando,
talvez seja por que o mundo é uma caverna de horrores de todos os lados,
você cai de joelhos em frangalhos,
por que você se enxerga lá fora e isso dói,
e a verdade é que a dor não vai passar.
A caverna de horrores é assombrosamente honesta,
e mutilado você caminha,
para onde, por que e para que, já não parecem importar,
tudo o que resta é caminhar,
apenas caminhar,
e a lua já não ilumina,
e as estrelas estão apagadas,
e a natureza está gemendo dilacerada,
e as relações humanas jazem falsificadas,
é de adoecer perceber que a caverna sempre esteve em você,
mesmo aquela que você dizia estar nos outros,
é deprimente ver que os outros são o seu reflexo,
já não há dia,
nem sol,
nem saída,
só a sua podridão assistida,
e de repente você vê a si mesmo como é,
mas ao mesmo tempo se nega a acreditar,
dura caverna de horrores...
A suas orações não passam de genuflexões farisaicas dirigidas a um Deus sobre o qual você tem dúvidas,
o seu canto não passa de música de chuveiro,
os seus gestos são automatizados,
você é um número,
um cadastro,
uma cifra,
um cifrão.
Você tenta fugir da estrada e caminha até chegar a uma casa sagrada,
e diante do altar,
sentado em um dos bancos,
algo te corrói,
não há comunhão,
não há partilhar de bens,
não há afinidade na oração,
você fica confuso,
é estranho dizer... mas cinco pães e dois peixinhos não parecem mais bastar,
onde está o homem-deus que andou sobre as águas?
Você de repente desperta,
o mundo é uma imensa caverna,
e em meio à sua incredulidade,
você se pergunta no que a igreja crê,
você...
tão horrível...
tão desprezível...
você...
sua visão turva enxerga a fatídica verdade de que a santidade mudou de casa,
você então perde a esperança da cura,
você que busca o remédio descobre que não há mais bálsamo em Gileade,
e então caminha...
não há palavras a serem ditas,
e mesmo que houvessem todas seriam vazias,
e você vive em um mundo de brevidade,
que tão rápido se desfaz,
vem dessa forma, a lembrança da época em que você andava de mãos dadas,
não há mais mãos para segurar,
não há mais olhos para com os seus cruzar,
não há mais corpos para abraçar,
não há mais bocas, ouvidos, narizes...
e você caminha,
você, o quase ateu,
em uma busca covarde por Deus,
você, o menino da igreja que tratou Deus como dono de empresa,
agora você precisa acreditar,
você quer,
é sua saída... (não há saída).
Você fala e Deus parece não escutar,
você grita e a sua voz ecoa na caverna de horrores,
e você se contorce em dores...
a verdade sobre você , sobre o impostor, surge somatiza em cada um dos seus órgãos,
o seu coração é um recanto de inveja, orgulho e mentira,
o seu intestino é abjeto como a sua vontade de ter além do necessário,
o seu pulmão é negro como a cirrose da traição,
seu estômago é volumoso como a sua luxúria,
sua cabeça e pensamentos são tão desenfreados como a sua ira,
seus braços são punhais e sua pernas perdição.
O mundo estão tão escuro,
talvez seja ele seu nítido retrato,
já não há luz para acender,
água boa de se beber,
e com fome e sede você caminha,
nem estrada há mais,
apenas uma pequena e tão apertada trilha,
a escuridão nesse lugar te faz lembrar mais de você,
você que já não anda,
se arrasta,
tudo o que pode é reconhecer que ser “ser-humano” cansa,
depois de um tempo,
um misto de náusea, angústia e depressão te possuem,
além da caverna de horrores,
muito além da caverna de horrores que você é,
ao longe,
uma fagulha de luz te mostra que o seu fim,
o fim da trilha,
o lugar de onde não dá para passar,
acaba em uma caverna,
sem sol,
sem chuva,
sem lua,
sem estrelas,
sem vida,
você já nem se pergunta que mal pode haver nisso,
com um ar tranquilo você se aproxima,
e lá você percebe que sempre é possível descer um nível além do qual se está,
tudo o que você descobre,
é que aquele buraco que você bem poderia chamar de lar,
está putrefato,
tem o cheiro da morte,
você está em um cemitério,
em uma cova,
sentado ao lado de um morto,
você chega a se questionar se o cheiro da morte é seu ou dele,
e então chora sem esperança alguma,
sua vida não tem sentido,
você está vivo no seu velório,
condenado a ser um zumbi,
tudo o que você quer é sair dali,
mas ali pode ser você,
No entanto, se arrastando e trocando os pés pelas mão você saí do sepulcro,
e lá fora é tão vazio quanto dentro do seu ser,
a eterna noite sem lua,
suas pernas estão pesadas,
seu corpo não te obedece,
em agonia você se senta,
coloca a cabeça entre as pernas,
e rompe em soluços e lágrimas,
o mundo está todo em suas costas,
o pior... você está em suas costas,
você... o seu maior peso,
você olha olha para a caverna do morto,
mas é mais podre que aquele lugar,
não existe outra caverna de horrores a não ser a que está dentro de você,
de repente tudo fica claro,
você é podre, imundo, sujo e tenebroso,
você...
o vaidoso, o mentiroso, o adúltero,
o ladrão, o invejoso, o iracundo,
o rebelde, o fofoqueiro, o covarde,
o idólatra, o feiticeiro, o glutão,
o soberbo, o egoísta, o incrédulo,
o devorador de pecados,
o poço de horrores,
com dificuldades você se levanta,
decide viver enterrado,
você quer a caverna dos mortos,
pé após pé você chega lá,
e tudo escurece... não há morto!
Você se pergunta se não foi uma projeção da sua própria vida,
mas que vida?
Você parte em busca de alguém,
do inteligível, da explicação,
mas na noite fria em que sua vida se tornou,
só há o mistério insondável de todas as coisas,
você está cansado das máscaras e papéis que desenvolveu,
você se rende e finalmente aceita que não é um bom menino,
não é tão corajoso ou honesto,
verdadeiro ou santo,
amoroso ou compreensivo,
você não é tão família como costuma dizer,
cada aceitação é um processo cirúrgico sem anestesia que dilacera seu ego,
finalmente você aceita que algo te machuca,
você não é tão forte,
não é de ferro,
parece mais um castelo de cartas que desmoronou,
e tudo se acaba...
sua nudez está exposta diante de todos...
mas pela primeira vez você não quer fugir.
Então em meio às suas sombras ele aparece,
o morto ao seu lado,
o verbo ressuscitado,
o jardineiro fiel,
você não entende nada,
mas seus olhos se encontram com os dele,
as palavras se tornam obsoletas,
as justificativas não mais existem,
de pé vocês andam lado a lado,
só aquela presença inexplicável te basta,
em um primeiro momento pouco importa saber o destino da caminhada,
a realidade é que agora está tudo bem,
e o jardineiro fiel está te levando de volta para o jardim,
a sua casa jamais conhecida,
o seu único lar,
a sua cidade amada,
tudo agora está claro,
tudo é paz,
ao seu lado o jardineiro caminha...
fevereiro/março 2007