Douglas Henrique Santarelli Menezes
O meu nome é “EU SOU”,
e tenho tantos outros que qualquer homem diante da minha glória se arrepia,
quando criei esse mundo grande do qual EU SOU a porteira,
nunca houve no céu tanta festa e alegria,
e se vosmecês pensam que me deixei levar por tanta euforia,
aí é que se enganam,
criar o mundo e tudo que nele há,
sol, lua, estrela, terra, mar, animais, árvores, a humanidade e tudo mais,
é coisa que exige esforço e dedicação,
ainda mais quando se projeta a obra magnífica para seis dias,
e para arrematar como o bom artista que sou,
deixei pro fim a obra-prima,
reguei a terra com minhas lágrimas,
e nela meti as mãos,
fiz barro que foi uma sujeira só,
mas lá no fim estava ele, o homem,
olhei pra'ele e inda uma coisa faltava,
é bem verdade que o cabra comigo se parecia,
aquilo me deu um baita orgulho,
vejam só, a minha imagem refletida na minha obra-prima,
fiquei tão engrandecido com tudo aquilo que ali se passava,
que enchi meus pulmões com ar,
que o meu sopro foi quase uma ventania,
e quando o vento virou brisa estava o homem cheio da minha vida,
e Eu disse cá comigo,
agora descansarei,
no entanto não resistia,
todas as tardes trocava uma prosa com o cabra que criei,
e antes que vossas imaginações criem asas,
foi num jardim que o plantei,
fica lá pras bandas do sertão,
e desde já vos asseguro que nem com mapa do tesouro o encontrarão,
e agora o que vou lhes contar,
é com pesar e decepção,
estavam lá o homem e sua mulher cuidando da criação,
e tendo sempre du'bão,
quando o tinhoso-cão lhes fez uma proposta de cabra da peste,
“dão só uma mordida nesse gerimum”, disse ele,
“que vocês vão ser como aquele que os criou, donos de tudo, até do agreste”
nem tempo se deram para pensar,
e desde aquele dia o meu sopro de vida começou a neles vazar,
e é assim que a morte,
bem como a fome, a peste, a doença e todo tipo de mal se tornou uma sina pra todo homem carregar,
e agora ouçam o que lhes digo,
se vocês perguntarem para mim o nome de todos homens que há,
sei dar conta de cada um deles,
até dos que ainda estão para respirar,
no entanto, para fins de demonstrar pra onde leva a desobediência,
um só sobrenome para todos há,
“Pecadinos”,
mas que nenhum quer abraçar,
e desde a queda são todos “pecadinos” na vida,
iguais em tudo na sua triste sina,
morrendo cada qual de morte igual,
seja ela na emboscada, na peixeira, na espingarda, na granada, de doença ou até natural,
e se não se achegam a mim ainda tem o agravante da morte espiritual,
mas, agora, sem mais delongas,
vos peço licença para mostrar a trajetória de um cabra minguado do sertão,
o nome não importa,
por isso vamos dar a ele o sobrenome que lhe cabe nesta vida,
eis aí diante de vós a peregrinação de “pecadino” da silva!
Desde que nasceu o cabra inda menino tinha na cuca uma idéia sem igual,
“vou sair desta terra onde a sina é trabalhar de sol a sol”,
queria vida melhor e se possível sem tanto suor,
mas o fato é que a vida foi passando e “pecadino” de menino se tornou homem do bem crescidinho,
e um dia sem ninguém avisar fez uma trouxa de roupa e se pôs a caminhar,
andou, andou, andou...
tinha plano traçado: “é no sudeste, cidade grande que quero chegar,
lá minha estrapiada vida vai com certeza mudar”,
e “pecadino” anda,
sua triste sina é como os outros homens se arrastar,
e o dinheiro acaba,
na estrada carona não há,
“pecadino” às vezes por falta de comida passa a “variar”,
mas quem tem um sonho não deixa ele pesadelo se tornar,
o homem com a roupa suja e a esperança embotada pára para descansar,
e descansando ele vê que está perto de um bar,
lá, “pecadino”, vê que o ser humano tem índole má,
prostituição infantil, prostituição de tudo o que é jeito que há,
homem bebendo de cair, outros aproveitando pra roubar,
e foi meio de desespero, meio de teimosia que ele se pôs a levantar,
olhou pro céu, um sol de rachar,
pensou consigo mesmo,
“vou me por a andar por que quanto antes isso fizer no meu destino vou chegar”,
o que “pecadino” não sabia é que EU, supremo criador,
escrevo certo em linhas curvas de “BRS” tortas,
e foi assim que ele um dia sem saber por que, nem pra que entrou numa igreja onde todo [pessoal falava umas línguas estranhas que nem dava pra entender,
e sentado no banco, “pecadino”, é despertado por uma proposta do homem de Deus,
pergunta mais simples não pode ter,
“quem aqui aceita Jesus, o único que o pode salvar”?
Ele levanta a mão e pela primeira vez descobre que até cabra macho, diante de meu filho, não consegue não chorar,
disseram a “pecadino” que agora ele tinha um novo coração,
isso era coisa que não dava pra ele entender não,
mas com uma afirmativa de cabeça ele faz assentimento,
conta pro pastor que está indo pro sudeste nova vida começar,
o homem de Deus ri e lhe diz que agora ele é cidadão da cidade mais bonita que há,
“pecadino” olha com estranheza como quem não entende o que se passa,
o pastor, então, lhe fala de uma tal “Jerusalém Celestial”,
cidade tão bonita com ruas feitas de pedras preciosas, ouro, prata e do melhor material que [há,
diz ainda o homem que lá não há dor, nem choro, nem morte,
e que todo cidadão de lá é imortal,
“pecadino” sorri ao pensar em lugar tão descomunal,
e se sente mais forte,
veja só, ele agora é um imortal,
ele se despede e segue a sua sina,
no caminho para o sudeste uma mulher prenha ele pára pra ajudar,
quando era menino muito parto viu,
e agora na estrada só com um pouco d'água,
é a sua vez de fazer mais uma criança vir ao mundo e berrar,
o nome da mãe não pode ser mais comum,
“Maria”, grita ela do fundo de sua dor,
“pecadino” pede a ela que faça força pois o rebento para fora quer pular,
e depois de hora,
ele diz a ela que nasceu menino,
“Qual nome quer lhe dar”?
Ela diz, ainda gemendo, “Emmanuel, pois nome melhor não há,
é que eu quero sentir que Nosso Senhor perto de mim está”,
“pecadino” se emociona e diz: “Então feito está, Emmanuel ele vai se chamar”,
e num gesto de engraçada onipotência ele levanta o bebê no ar,
e conta pro mundo que ele nasceu,
e se volta pra mim e com certa intimidade se põe a orar,
e no fim da sua oração ele me diz: “Todo-Poderoso toma que o filho é teu”,
e “pecadino” mal sabia que nessa oração maior verdade não há.
Um dia chega a São Paulo,
depois de muito tempo vagar,
consegue numa favela morar,
ele se sente pequeno,
a gente da cidade grande olha pra ele com cara desconfiada, outros nem são capazes de o enxergar,
no morro ele vê toda tristeza que o mundo pode dar,
traficante, ladrão, assassino, e polícia corrupta querendo a droga e o morro controlar,
“pecadino” vê muita morte besta,
mas ele não quer desistir,
“Com Jesus, Nosso Senhor” ele sempre pensa “a sorte um dia há de me sorrir”,
“pecadino” é gente boa,
na favela ninguém tem nada para dele reclamar,
e foi numa sexta-feira santa bem de madruga que o emprego finalmente acaba por lhe acenar,
trabalho honesto,
Ele pensa, “uma família agora posso criar”,
mas acontece que ao sair da firma,
um tiroteio arrebenta por lá,
e uma bala perdidamente traiçoeira acaba por o acertar,
vai direto pro coração,
a fonte da vida,
“pecadino” tomba no chão, o sangue a escoar,
ele só tem tempo pra uma frase deixar,
“está ficando escuro, agora eu vou mais é descansar, Deus meu, Deus meu, logo agora que a [minha sorte ia mudar”?
Pra “pecadino” nem funeral há,
é enterrado numa vala comum,
sua morte não é registrada por qualquer presente,
sua sorte é até na morte ser pequeno, nada mais que um mulecote,
a única terra que lhe coube na vida é esta,
sete palmos, dois metros de comprimento por um de largura,
mas o que “pecadino” não sabia era que só depois da sua morte sua sorte ia mudar,
aquela cidade que o homem de Deus havia falado existe e é lá que ele foi parar,
vestido todo de branco como todos por lá,
alguém lhe sorri e diz que seu nome “pecadino” não é mais,
e ele ganha um novo nome,
que de tão bonito nem dá para falar,
e ao se tocar ele sente a eternidade dentro de si,
e ao coro bonito quer se juntar,
pois só cantam música da boa em tudo que é língua que há e o bacana é que todo mundo se entende por lá,
“Santo, Santo, Santo”, ninguém para de cantar,
e quando ele levanta a cabeça um Homem ele passa a avistar,
o cabra é bonito e dele sai uma luz quase de cegar,
é tanta paz que dá até vontade de pular,
a impressão que tem é que ele já viu o moço em algum lugar,
e quando ele pergunta, a resposta que lhe vem é de assombrar,
“Emmanuel é o Deus que conosco aqui sempre está”,
e num instante a realidade se põe a girar,
e quando pára ele pensa ter visto o bebezinho da estrada no “Santo EU SOU” a lhe acenar,
e sua alegria é mais radiante,
na Jerusalém Celestial ele caminha por ruas jamais sonhadas,
e nada em rios que transmitem vida pura,
galardão é o que mais há,
e na sua imortalidade ele é contente,
Eu, o Dono da vida, sou-lhe sempre presente,
Ele é cidadão e todos o enxergam,
ainda que ele seja servo pequeno por demais,
ele tem um nome tão bonito que nem dá pra contar,
e tudo o que ele faz é o joelhos dobrar,
ele que sonhou em trabalho e descanso,
agora só quer se por a cantar,
“Santo, Santo, Santo é o Emmanuel que comigo sempre está”,
e EU do meu alto e sublime trono fico a contemplar,
e é com um certo orgulho mal disfarçado que me ponho a pensar,
“e não é que o meu menino do sertão seu sonho conseguiu realizar”?
Depois das sua peregrinações e andanças pela Terra,
na Grande Cidade ele conseguiu chegar...
2004-2007 (poesia escrita nesse intervalo de tempo)
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