terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dias (o deserto de ser humano)

Douglas Santarelli

Houveram dias em que meu coração perturbado parecia querer se fechar para a possibilidade da intervenção divina,
dias negros,
em que eu me sentia um não sei o quê,
A gente às vezes diz um não sei o quê,
Por não saber o que se é,
ou por se temer o que se é,
Nesses dias eu tinha uma vontade estranha de querer resolver logo,
ou de sumir logo do mundo,
mas sumir não seria a solução,
visto que a agonia de não existir ou de não se ter agonia deve ser muito mais agonizante do que sofrer a agonia desses dias negros,
estive nesse tempo um tanto quanto filósofo errante,
errante por não saber dizer claramente o que sentia ou pensava ou vivia,
nesses dias a caneta e o teclado me eram repugnantes,
por revelarem a minha incapacidade de criar na escuridão,
por revelarem um ser humano que continua falhando nos pontos iniciais,
sentindo uma vontade de gritar, de me expressar,
afogado no trabalho,
a máquina que não pode parar continuava a trabalhar na máquina que não trabalha por si só,
Nessas épocas,
mesmo me entregando ao trabalho como um irracional,
o tempo era meu inimigo e não passava,
revelando minha superficialidade e falta de dependência,
no entanto a escravidão ao medo é o que mais me incomodava,
eu queria ser valente,
perfeitamente corajoso,
mas aquilo na garganta,
um nó,
ficava ali me dizendo que eu não era aquela muralha,
e a angústia ardia no peito,
cheguei a pensar que se isso fosse ser humano,
então não queria mais,
acontece um dia na vida da gente,
de parecermos crianças birrentas,
e eu me sentia meio assim,
querendo espernear, gritar e fazer birra,
para não sentir mais aquilo que eu sentia,
Acontece um tempo,
em que a sós,
descobrimos quem somos,
tempo terrível de dor e medo,
mas é desse tempo que vem a bonança,
a esperança de nascer de novo,
e ser o novo homem,
mas dói até poder dizer:
Eis-me aqui,
E se aqui for deserto,
meu deserto é o meu maior tesouro!


05.07.2002

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