domingo, 24 de fevereiro de 2008

Só sei que te amo

Douglas Santarelli

O mundo é mesmo uma grande massa inconjunta de desonestidades,
Nele não se pode soletrar, sem sobressaltos, no coração, palavras doces,
Alguma coisa me aconteceu desde o dia em que deixei de ser dia,
Minha poesia foi-se e em seu lugar ficou a boca seca,
Sem saliva, sem nada para saciar,
O mundo tornou-se esterco,
Mas quem disse que esterco não cheira bem?
Quando eu era menino pensava nas coisas do campo;

Nunca gostei do campo,
Mas pensava nos cavalos e eles me remetiam ao esterco,
Minha felicidade era quando via cavalos pela cidade grande,
Que sem descrição alguma perfumavam a cidade com seu lúgubre fedor,
Essas coisas são estranhas de se dizer em um poema de amor,
Mas para onde foi o bem-querer em um mundo que vive de olho por olho e dente por dente?
Algumas vezes quando pensava em quem seria você,
Eu me perguntava quem eu teria de ser,
E me dói a descoberta da ignorância que inquieta os meus versos,

Sei que te amo,
E só isso é que posso te afirmar,
Mas quem te ama não sei,
Eu não me sei mais,
Algumas noites já acordei suado e vivo com a impressão de que eu sou você,
De que somos tão misturados,
Que na vida não se pode pensar em dois seres,
Somos um micro-cosmo de ardência, desejo, paixão, libido e carinho,
Somos um cordão,
Foi em um dia de sábado que o criador nos fez,
Ele fez que fez,
Modelando bem devagar,
Soprou vida e riu,
E seu riso leve fez-se gargalhada,
E Deus tomou um copo de vinho e brindou à boa obra que fizera,
Mas o mundo...
Esse mundo velho sem porteira...
Ah! Esse não tem jeito.
Vai sempre enterrando o amor e falando da realidade,
Como se as duas coisas não fossem as mesmas,
Minha poesia se estranhou,
E preciso novamente te dizer que só sei o fato de te amar,
Errando, mas amando,
Desenfreado, mas amando,
Estonteado, mas amando assim mesmo,
Quando te amo sinto que sou alguém,
Que ainda tenho possibilidades,
Que tem jeito para mim, enfim...
Fora de ti, não há mim...
Meu amor,
Não existe eu ou tu,
Só o nós, e isso nos basta,
E ser nós é amar...
Lá fora o vento soprou e um menino nasceu,
Ele é a prova viva de que somos verdadeiros, de que existimos somente um no outro,
A lua está cheia,
E o vento soprou...
Levando um beijo meu a ti,
Um beijo que já existia em ti,
Por que somos um.


18.12.2006

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