sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ontem...

Douglas Santarelli

Ontem...
Sempre ontem...
Eu vi na sarjeta da cidade,
De vitrines bonitas e brilhantes,
A mão pedinte,
Estendida e sem vida,
Nos seus olhos não havia luz,
Havia gritos,
Nascidos não da minha roupa bem vestida,
Mas da sina de não se ter o que comer,
Ou de não se poder comer o desperdício dos outros.

Eu passo todos os dias pela fome,
Sem lhe saciar,
Talvez por que sendo bicho homem,
Desaprendi a comungar,
Canto todos os dias que o Brasil precisa mudar,
Mas a verdade é que sou todo vitrine e luzes e câmera e ação,
Meu coração é fechado,
É ruína, espírito abatido,
No íntimo,
sou pobre menino mendigo.

Hoje,
Que mais parece o eterno ontem,
Eu vi na sarjeta da cidade vertical e vibrante,
A overdose no sangue do trabalhador,
O desespero a que se chega de ver a família da gente,
Pedindo o pão quente,
Quando não se tem nem o pão duro para esfarelar,
Quando se faz da doença do pobre,
O sistema único de saúde para a elite prosperar,
Dóem as minhas vistas,
Mas o jejum da empatia eu não aprendi a praticar,
Vivo com outros homens e com eles até busco a Deus,
Mas sou o que sou,
A comunidade de um homem só,
Agoniado,
Mas sempre mascarado com a pintura das vaidades.

Amanhã eu não sei o que será,
O que meus olhos verão na cidade convidativa e festiva?
Esse encanto triste,
Talvez seja o menino que vai deixar de ser criança,
Para que nasça o bandido...

Cantem os tiros, os desassossegos,
A mentira das classes,
A tela jornalística que canta o discurso arranjado da pseudo-paz,
E nos bastidores vota a violência institucionalizada,
Cantem! Gritem!

Enquanto isso no silêncio,
No burburinho do dia,
E no calar da noite,
O Cristo crucificado-glorificado virá...

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