domingo, 2 de março de 2008
Todo o amor que houver nessa vida II
Eu quero a graça de um amor bem vivido,
Tão tranqüilo,
Aquele porto seguro e abrigo,
Com seu gosto no pedaço mordido da fruta,
Uma salada embebida nos teus lábios,
Nós, na batida, no embalo da rede,
Jogando conversa fora,
Matando a sede na saliva,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
Para minha pequena.
Andar descalços na areia da praia,
O vento forte batendo ,
Nos acariciando junto com as águas,
Um pouco de poesia para nos iluminar em março,
E algum bocado pra dar garantia,
E ser o que somos sem medo de ser felizes,
Sem precisar temer,
Um instante de refrigério no nosso dia,
Coisas corriqueiras,
Momentos de quebra da monotonia,
Pra poesia escrita e falada,
Se transformar na nossa estrada a ser construída,
Com argamassa divina,
Tijolos unidos,
Na paz,
E nas brigas,
Transformar o tato numa maneira de te ver,
Te olhar com as mãos,
Te ouvir com os lábios,
Te amar confunde os meus sentidos,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
E minha querida,
Já não me espanto com o veneno,
De quem não cria,
E se eu achar a sua fonte escondida,
Jogo uma moeda e te desejo para sempre,
Feche os olhos bem apertados,
Te alcanço em cheio o mel e a ferida,
A dor e o prazer,
Guerreando em nossos corpos,
Que já não querem mais ser metade,
E inteiro te arrastando aos poucos,
Boca nua e a tua,
Me marcando todo,
Eu todo através de você,
Em você,
Ser teu pão, ser tua comida,
Todo amor que houver nessa vida,
Brincando com os dias,
Lutando por que eles são maus,
Meu remédio que me dá alegria,
Uma guria jóia pra amar,
Pensando bem a frente eu já te insistia,
Quando sentei sozinho na cadeira de balanço,
Uma angústia me bateu,
Tão vazia,
Eu tinha escrito algo,
Mas não me lembro,
Minha grafia tão incompleta,
Esperando por alguma coisa que não sei dizer,
Triste deixei as lágrimas me denunciarem,
Bem mansinho pra ninguém me ouvir,
Um passeio no parque,
Só nós e o mundo todo pra trás,
Ser teu sangue, sua bebida,
Todo amor que houver nessa vida,
Intensamente,
Pensando em você,
O telefone grita no silêncio da casa,
Minha saudade na linha,
Eu querendo me transportar,
Uma música toca ao fundo,
No fundo,
Eu tinha pensando em te fazer uma serenata,
Mas não sei cantar,
Sou desafinado como o pato da bossa,
Estou querendo saber do anular,
Querendo que chegue logo o sim,
Por favor não me peça pra parar,
Não posso evitar,
Todo esse amor que sinto por sua vida,
Enquanto houver vida e depois da partida,
Ser teu coração, suas batidas,
Te carregar no colo,
As escadarias de toda via,
Minha fantasia que não escondo pra você,
Te desenhar com o pensamento,
E te modelar com as mãos,
O papel tem ficado tão em branco ultimamente,
Perdi a chave do cadeado,
Os versos têm saído pelas frestas,
Tão minguados, tão tímidos,
Tive o impulso de te pegar,
Te levar sei lá pra onde,
E ser teu dia e tua noite,
Te aquecer e te esfriar,
As tuas mãos,
Esquecidas nas minhas,
Tão minhas que já não podem se separar,
Ser teu coração, suas batidas,
Todo amor que houver nessa vida,
E quando já estivermos com o tempo contra nós,
Vamos sentar juntos debaixo de uma árvore,
Só sombra e água fresca,
E vamos contar e rir das histórias de nós dois,
Ser teu pão, ser tua comida
Ser seu sangue, sua bebida
Pegue nos meus pulsos e se sinta
Pra minha linda
Todo amor que houver nessa vida
E depois da partida ser seu coração, suas batidas.
22.09.2000
sábado, 1 de março de 2008
Hoje à noite o meu coração é seu...
Douglas Santarelli
Hoje à noite o luar vai ser diferente,
Sua Poesia vai estar mais perto de mim.
E talvez eu já seja uma parte tua,
Um coração pede ao outro coração,
Um cantinho nesse peito que se dilata,
Eu já vi todo o sofrimento,
Eu me descobri gente sentindo o peso dos velhos nas calçadas,
Dos pedintes miseráveis,
Das crianças de rua que suscitam raiva e misericórdia em nós,
Mas meu amor hoje à noite o luar vai ser diferente do diferente a que já nos acostumamos,
Eu podia ficar te contando a nossa história,
E blá, blá, blá,
Só que eu estou querendo te dizer algo novo,
Pra acrescentar,
Meu coração fica pequeno e cabe numa forma quando longe de você,
Eu nunca entendi bem essa coisa,
Mas sei que te amo,
E é isso que conta,
Eu podia te levar no cinema,
Mas a aula me impede,
Amor hoje não é feriado para nós,
Você vai ficar em casa trabalhando e eu vou sentir a tua falta,
Trabalhando,
Um coração pede um toque de outro coração,
Eu cresci com o teu abraço e hoje é difícil não ter essa sensação de aconchego,
De abrigo,
Meu amor hoje á noite o luar vai diferente,
A lua vai nos seguir a noite inteira,
E de repente você vai me perceber,
E eu vou te perceber,
Mesmo longe,
Colados um no outro,
Eu tinha uma jóia pra falar,
Mas já nem me lembro,
Algumas coisas não precisam ser ditas,
Outras não devem ser ditas nunca,
É que, meu amor,
Um coração precisa estar brilhando em seu peito,
Por isso feche os olhos,
E se deixe conduzir,
A poesia se esconde entre nossos lábios,
Hoje á noite o coração vai pulsar mais forte,
E num repente uma dorzinha de saudade vai bater,
Construindo um novo viver,
Pra entender tudo isso que eu digo precisa ser você,
Captando as batidas do meu coração pequeno,
Hoje á noite o luar vai ser diferente,
Eu vou te entregar algo,
Que vai ser seu pra sempre,
A nossa amizade e o nosso amor vão ficar mais fortes,
Vai ter um pacto e um símbolo,
Que você vai carregar,
E só os cegos não vão ver que o nosso luar é sempre diferente.
Do de toda essa gente que passa por nós sem nos conhecer,
E quando você olhar pra lua,
Ou pro sol num dia em que a tarde for diferente,
Lembre-se que meu coração é seu pra sempre.
14/08/00
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Ontem...
Ontem...
Sempre ontem...
Eu vi na sarjeta da cidade,
De vitrines bonitas e brilhantes,
A mão pedinte,
Estendida e sem vida,
Nos seus olhos não havia luz,
Havia gritos,
Nascidos não da minha roupa bem vestida,
Mas da sina de não se ter o que comer,
Ou de não se poder comer o desperdício dos outros.
Eu passo todos os dias pela fome,
Sem lhe saciar,
Talvez por que sendo bicho homem,
Desaprendi a comungar,
Canto todos os dias que o Brasil precisa mudar,
Mas a verdade é que sou todo vitrine e luzes e câmera e ação,
Meu coração é fechado,
É ruína, espírito abatido,
No íntimo,
sou pobre menino mendigo.
Hoje,
Que mais parece o eterno ontem,
Eu vi na sarjeta da cidade vertical e vibrante,
A overdose no sangue do trabalhador,
O desespero a que se chega de ver a família da gente,
Pedindo o pão quente,
Quando não se tem nem o pão duro para esfarelar,
Quando se faz da doença do pobre,
O sistema único de saúde para a elite prosperar,
Dóem as minhas vistas,
Mas o jejum da empatia eu não aprendi a praticar,
Vivo com outros homens e com eles até busco a Deus,
Mas sou o que sou,
A comunidade de um homem só,
Agoniado,
Mas sempre mascarado com a pintura das vaidades.
Amanhã eu não sei o que será,
O que meus olhos verão na cidade convidativa e festiva?
Esse encanto triste,
Talvez seja o menino que vai deixar de ser criança,
Para que nasça o bandido...
Cantem os tiros, os desassossegos,
A mentira das classes,
A tela jornalística que canta o discurso arranjado da pseudo-paz,
E nos bastidores vota a violência institucionalizada,
Cantem! Gritem!
Enquanto isso no silêncio,
No burburinho do dia,
E no calar da noite,
O Cristo crucificado-glorificado virá...
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
O beco
A minha poesia é um beco estranho,
É uma caminhada de silêncio,
E de mãos dadas vou entrecortando o caminho de vales,
Que ainda serão planos,
Mas por que planar o caminho,
Se a vida,
É ela mesma,
Vale, planície, montanha e abismo?
Eu me tornei o meu estranho,
Eu que sonhei com a infindável beleza da igualdade.
Quantos de mim existem?
Pelo menos uns quatro ou cinco,
Além destes há ainda aqueles de mim que subsistem e se projetam nos outros.
O beco é um olhar perdido nos corredores de um labirinto chamado existência,
Suas paredes são sólidas como o amor,
E suas armadilhas difíceis de desviar,
Difícil é também se desvencilhar do sofrimento, da agonia, da indiferença,
Neste momento eu sou todo tormento e euforia,
Nem mesmo sei quem sou ou o que faço,
Sei que prossigo,
E prosseguir muitas vezes é engano.
Penso no beco...
Sua estranheza me causa espanto,
Espanto de quê?!
De não descansar,
Quando o momento é de descanso,
Lucidez!
O beco é estranho,
Mas minha poesia ainda o traduz,
Por isso quando eu morrer não quero que os homens chorem,
Pois vou estar rindo com Deus,
Depois de ter atravessado o inusitado-inevitável beco,
Meu estranho beco,
Na desejada Cidade do Amém,
Estarei envolvido por ternos braços,
Nos braços do Reino da luz.
07.09.2004
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Por quês
Algum dia haverei de morrer,
Qual seja não sei,
Sei que chegará,
Se está próximo ou não, quem sabe?
Quem sabe o que é próximo e o que é distante?
Não consigo ser quem eu quero,
E esse desespero de não ser,
Me mata um pouco mais a cada dia,
E o que é o dia ou a noite?
Existirão?
Existo eu se não sou quem eu quero ou deveria ser?
Algum dia haverei de morrer,
E que me importa isso,
Se tudo que me ensinaram foi viver?
Mesmo que teimosamente, viver?
E nesse viver me fica corroendo a dúvida,
Algum dia nasci?
E se nasci, "por quês"?
03/12/2004
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Dias (o deserto de ser humano)
Houveram dias em que meu coração perturbado parecia querer se fechar para a possibilidade da intervenção divina,
dias negros,
em que eu me sentia um não sei o quê,
A gente às vezes diz um não sei o quê,
Por não saber o que se é,
ou por se temer o que se é,
Nesses dias eu tinha uma vontade estranha de querer resolver logo,
ou de sumir logo do mundo,
mas sumir não seria a solução,
visto que a agonia de não existir ou de não se ter agonia deve ser muito mais agonizante do que sofrer a agonia desses dias negros,
estive nesse tempo um tanto quanto filósofo errante,
errante por não saber dizer claramente o que sentia ou pensava ou vivia,
nesses dias a caneta e o teclado me eram repugnantes,
por revelarem a minha incapacidade de criar na escuridão,
por revelarem um ser humano que continua falhando nos pontos iniciais,
sentindo uma vontade de gritar, de me expressar,
afogado no trabalho,
a máquina que não pode parar continuava a trabalhar na máquina que não trabalha por si só,
Nessas épocas,
mesmo me entregando ao trabalho como um irracional,
o tempo era meu inimigo e não passava,
revelando minha superficialidade e falta de dependência,
no entanto a escravidão ao medo é o que mais me incomodava,
eu queria ser valente,
perfeitamente corajoso,
mas aquilo na garganta,
um nó,
ficava ali me dizendo que eu não era aquela muralha,
e a angústia ardia no peito,
cheguei a pensar que se isso fosse ser humano,
então não queria mais,
acontece um dia na vida da gente,
de parecermos crianças birrentas,
e eu me sentia meio assim,
querendo espernear, gritar e fazer birra,
para não sentir mais aquilo que eu sentia,
Acontece um tempo,
em que a sós,
descobrimos quem somos,
tempo terrível de dor e medo,
mas é desse tempo que vem a bonança,
a esperança de nascer de novo,
e ser o novo homem,
mas dói até poder dizer:
Eis-me aqui,
E se aqui for deserto,
meu deserto é o meu maior tesouro!
05.07.2002
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Sem você
Um calor do cão, um frio de rachar
Nesse nosso mundo tudo parece fora do lugar,
É estranho que se diga isso,
Mas chegou o eterno tempo,
Onde verão e inverno já não não são mais,
E aqui sem você,
Tudo parece estar fora do lugar
É uma sensação difícil de explicar,
Talvez seja saudade,
Além do que os dicionários podem delinear,
Mas meu bem, dicionários não sentem,
Palavras não sustentam essa coisa aguda em meu peito,
Só sei que tudo aqui parece estar fora do lugar
O dia, a noite,
Meu mundo virou desde que para o novo mundo você rumou,
É estranho que se diga isso,
Logo nós que sempre vimos o sol juntos,
E rimos abraçados para a lua,
E agora nem isso,
Pois em nossos mundos distantes,
Só é possível que seja dia para um,
E é por isso que eu te digo que os quatro elementos,
Terra, fogo, água e ar,
Conspiram contra nós,
Meu amor,
Sem você fica tudo fora do lugar
E nessa luta em que se perde para algo encontrar,
É que me descobri,
Como no tempo em que se podia dizer que ainda havia verões passados,
E invernos gelados,
No campo de batalhas com a armadura da saudade viva,
Deus fez-me ressuscitar,
Lembrei-me das casas em que mal vivemos, da boa comida que jamais faltou para compartilhar,
E quando a espada ergui,
Em seu reflexo eu pude ver mais que sentir,
Nossa cama repartida,
O enlace de nossas vidas,
A eternidade em nós dois,
E foi isso que me fez revelar,
Olá, bom dia, aí talvez já seja noite,
O meu nome é enganado,
O eterno “menino” vindo de outros tempos,
Mas que insiste em chegar sempre no horário,
Eu sou como um cachorro que corre contra cavalos,
Como pássaros que voam dentro de um buraco,
Não sei mais se te dou boa noite ou bom dia,
Mas muito prazer, meu nome é enganado,
Por andar na contramão pessoas vivem tentando me tirar do páreo,
Não sou puro sangue e já puxei muita carroça,
Nesse nosso mundo estranho,
O trabalho é um prazer cada vez mais raro,
O mundo é visto de uma mira de balas,
Invadem a terra dos outros sem nada a declarar,
Já nem enterram as pessoas mais na terra que um dia há de comer,
O mundo mudou seu curso natural,
Corpos espalhados pelo chão e paraísos dilacerados,
Crianças com as lágrimas nas mãos,
Mas quem sou eu,
Senão um enganado,
Um “peão” fora do tablado,
Nesse mundo de grandes negócios, eu nem sou um pequeno empresário,
Ei, posso te chamar novamente de meu amor?
E antes que você me pergunte quem eu sou,
Muito prazer, meu é enganado,
Só por que amei mais do que devia as causas dos marginalizados,
Mas, tudo bem... até pode ser que o que eu chame de cavaleiros do apocalipse não passem de homens,
No entanto, a verdade é que eles nunca deixarão de ser os senhores da fome, da peste, da guerra e da morte,
Tudo bem... seja como for,
Mas que seja sempre por amor às causas dos perdidos,
Tudo bem... até pode ser que o que eu chame de cavaleiros do apocalipse não passem de homens,
Mas saiba que estarei sempre aqui para te servir e te dar as boas vindas em cada retorno seu,
E se for por amor às causas perdidas,
Saiba que nossas vidas não vão ser um dia esquecidas,
Mas sobre o nome que eu tenho,
Prefiro ser um “enganado” como me chamam,
Do que um ser humano ilhado em suas próprias pretensões,
E quando penso em você,
Sei que você vai retornar,
E seu beijo vai ser a porta de entrada do paraíso pelo qual eu tanto oro,
Eu que tantas vezes em você toquei o céu,
A bandeira da Jerusalém Celestial tremula na sacada do meu coração,
No nosso templo não há caça e caçador,
Só nós e um lindo menino saindo para jantar,
A fila do cinema, o desenho começa a rolar,
Fala de família,
Ei meu amor
Tudo aqui parece estar fora do lugar
A bússola não para de rodar,
O sul, o norte,
Os quatro elementos
Sem você tudo está fora do lugar,
As coisas ficam dessaranjadas,
Sem você tudo fica...
Fora de foco, difícil de enxergar,
Procuro os óculos,
Mas eu não uso mais...
Meu amor, sem você tudo fica fora do lugar
Fora de si...demorado de se aguentar
E quando a gente tenta
De toda maneira
Do amor se guardar
Ele é um Sentimento ilhado
Que parece muitas vezes estar morto e amordaçado, mas que volta a incomodar...
E é só por amor às causas que sempre dizem que estão perdidas,
Que a Trindade fez de nós um cordão,
E é só por amor que escrevo nesses dias,
A sua poesia,
E quem sabe por que foi por amor se lembrem dos casais há muitos esquecidos,
Abelardo e Heloísa,
Dom Quixote e Dulcinéia,
Dante Alighieri e Beatriz,
Jesus e a Igreja...
E um dia por amor às causas que dizem que estão perdidas...
Eu e você.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Só sei que te amo
O mundo é mesmo uma grande massa inconjunta de desonestidades,
Nele não se pode soletrar, sem sobressaltos, no coração, palavras doces,
Alguma coisa me aconteceu desde o dia em que deixei de ser dia,
Minha poesia foi-se e em seu lugar ficou a boca seca,
Sem saliva, sem nada para saciar,
O mundo tornou-se esterco,
Mas quem disse que esterco não cheira bem?
Quando eu era menino pensava nas coisas do campo;
Nunca gostei do campo,
Mas pensava nos cavalos e eles me remetiam ao esterco,
Minha felicidade era quando via cavalos pela cidade grande,
Que sem descrição alguma perfumavam a cidade com seu lúgubre fedor,
Essas coisas são estranhas de se dizer em um poema de amor,
Mas para onde foi o bem-querer em um mundo que vive de olho por olho e dente por dente?
Algumas vezes quando pensava em quem seria você,
Eu me perguntava quem eu teria de ser,
E me dói a descoberta da ignorância que inquieta os meus versos,
Sei que te amo,
E só isso é que posso te afirmar,
Mas quem te ama não sei,
Eu não me sei mais,
Algumas noites já acordei suado e vivo com a impressão de que eu sou você,
De que somos tão misturados,
Que na vida não se pode pensar em dois seres,
Somos um micro-cosmo de ardência, desejo, paixão, libido e carinho,
Somos um cordão,
Foi em um dia de sábado que o criador nos fez,
Ele fez que fez,
Modelando bem devagar,
Soprou vida e riu,
E seu riso leve fez-se gargalhada,
E Deus tomou um copo de vinho e brindou à boa obra que fizera,
Mas o mundo...
Esse mundo velho sem porteira...
Ah! Esse não tem jeito.
Vai sempre enterrando o amor e falando da realidade,
Como se as duas coisas não fossem as mesmas,
Minha poesia se estranhou,
E preciso novamente te dizer que só sei o fato de te amar,
Errando, mas amando,
Desenfreado, mas amando,
Estonteado, mas amando assim mesmo,
Quando te amo sinto que sou alguém,
Que ainda tenho possibilidades,
Que tem jeito para mim, enfim...
Fora de ti, não há mim...
Meu amor,
Não existe eu ou tu,
Só o nós, e isso nos basta,
E ser nós é amar...
Lá fora o vento soprou e um menino nasceu,
Ele é a prova viva de que somos verdadeiros, de que existimos somente um no outro,
A lua está cheia,
E o vento soprou...
Levando um beijo meu a ti,
Um beijo que já existia em ti,
Por que somos um.
18.12.2006
sábado, 23 de fevereiro de 2008
De todas as maneiras II
Douglas Santarelli
De todas as maneiras,
verdadeiras que há de amar,
Nós já nos amamos,
Como meninos que fomos com nossos sonhos,
Com toda a nossa pretensiosa maturidade,
Nos amamos ao ponto das loucuras mais diversas,
Na medida em que se entornou o amor divino em nós,
O gozo eterno de uma paixão que se tornou coisa de gente grande,
Pra gente aprender que amar de verdade é coisa de gente pequena,
Nos amamos ao ponto de estarmos o mais perto de Deus: reproduzimos o dom da vida,
Amamos a pele,
A carne,
A alma,
Usamos todos os sentidos,
Amamos com o espírito,
De todas as maneiras um amor prometido,
Um amor vivido,
De todas as maneiras que há de amar,
Do romantismo quase medieval à intensidade e agressividade pós-moderna,
Nos amamos com todas as palavras feitas pra sangrar,
Já nos cortamos com os olhares amargos e com a impaciência sem explicação,
Com as discussões que prometemos que nunca haveriam de vir,
Nos amamos ao ponto de quase colocar um ponto final,
Com todas as lágrimas e todo silêncio mal interpretados,
Nos cortamos querendo com isso que o sangue um do outro nos aproximasse mais,
Nos machucamos querendo carinho,
Buscando sentido,
Procurando entender onde estão os dois garotos que prometeram tantas coisas no altar,
E agora já passa da hora,
O céu estrelado,
Tá lindo lá fora,
Larga a minha mão,
E me toma por completo,
Me possui por que eu sou seu por toda a vida,
Solta as unhas do meu coração,
Ele é só seu mesmo,
E está apressado para te amar,
Para quase parar com a alegria desvairada do gozo celestial que nos invade quando nos tornamos um,
Esse coração que desanda a bater desvairado
Quando entra o teu verão,
Quando toda a sua paisagem é tão somente florida,
Quando seu beijo é minha taça de vinho,
Quando você mesma se torna a minha vinha,
E agora já passa da hora,
O silêncio me deixa ouvir a sua respiração,
Descompassada, ardente, viva...
De todas as maneiras que há de amar,
Já nos machucamos com todas as palavras que há para humilhar,
Nos afagamos com todas as palavras que há para exaltar,
E agora já é nossa hora,
E todas as horas serão,
E esse dia que nos marca com a religião do nosso ‘SIM’ diante do Deus vivo,
É mais um dia que a Poesia escreveu,
Então eu sei que tá lindo lá fora,
Mas fica aqui mesmo,
Dentro de mim,
Onde ainda é quente por sua causa,
E onde será sempre um porto seguro para você,
Pega na minha mão e me deixa te dar a direção,
Deixa suas unhas no meu coração,
Pra ele sangrar e te marcar,
E aí eu vou saber que você é sempre minha,
De todas as maneiras já nos amamos,
Na proximidade e na distância,
Na fome e saciados,
Na paz e na ignorância,
De todas as maneiras somos um do outro,
É só você me olhar e vai ver sua imagem de braços abertos pra te receber,
É só olhar meus olhos e vai encontrar neles os seus,
É só ser você que eu continuarei a existir em ti,
De todas as maneiras...
25.05.07 (06 anos de casamento)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Lázaro
Você vive, de repente em um mundo que por breve tempo se desfaz,
Na multidão de sorrisos e alegrias.
Quando se caminha pela rua,
é possível ouvir uma voz que fala insistentemente,
é estranho identificá-la como sua;
Ela está lá dentro e não quer sair,
apenas quer gritar e ser ouvida.
Você vai andando,
e pouco importa se é dia ou noite,
sempre há um breu te envolvendo,
existe uma caverna de horrores dentro de você,
e por algum motivo ela está escancarada,
ela é o lar do outo você,
a casa mal-assombrada jamais apresentada para o mundo,
o anti-cartão postal,
a feiúra que desconstrói a sua beleza maquiada,
a mentira que confronta suas meias verdades,
a soberba que expõe a sua pseudo-humildade,
No entanto, você vive em mundo que por breve tempo existe e logo se desfaz,
é um mundo que em um repente se torna assustador,
e você acorda e precisa aceitar que é o seu mundo!
Você então decide sair por aí,
você precisa relaxar,
mas a noite tem 24 horas,
a lagoa não cheira bem,
o asfalto está esburacado,
os ônibus estão incendiados,
as crianças estão sendo assassinadas,
você para e vê tudo,
e não sabe por que está chorando,
talvez seja por que o mundo é uma caverna de horrores de todos os lados,
você cai de joelhos em frangalhos,
por que você se enxerga lá fora e isso dói,
e a verdade é que a dor não vai passar.
A caverna de horrores é assombrosamente honesta,
e mutilado você caminha,
para onde, por que e para que, já não parecem importar,
tudo o que resta é caminhar,
apenas caminhar,
e a lua já não ilumina,
e as estrelas estão apagadas,
e a natureza está gemendo dilacerada,
e as relações humanas jazem falsificadas,
é de adoecer perceber que a caverna sempre esteve em você,
mesmo aquela que você dizia estar nos outros,
é deprimente ver que os outros são o seu reflexo,
já não há dia,
nem sol,
nem saída,
só a sua podridão assistida,
e de repente você vê a si mesmo como é,
mas ao mesmo tempo se nega a acreditar,
dura caverna de horrores...
A suas orações não passam de genuflexões farisaicas dirigidas a um Deus sobre o qual você tem dúvidas,
o seu canto não passa de música de chuveiro,
os seus gestos são automatizados,
você é um número,
um cadastro,
uma cifra,
um cifrão.
Você tenta fugir da estrada e caminha até chegar a uma casa sagrada,
e diante do altar,
sentado em um dos bancos,
algo te corrói,
não há comunhão,
não há partilhar de bens,
não há afinidade na oração,
você fica confuso,
é estranho dizer... mas cinco pães e dois peixinhos não parecem mais bastar,
onde está o homem-deus que andou sobre as águas?
Você de repente desperta,
o mundo é uma imensa caverna,
e em meio à sua incredulidade,
você se pergunta no que a igreja crê,
você...
tão horrível...
tão desprezível...
você...
sua visão turva enxerga a fatídica verdade de que a santidade mudou de casa,
você então perde a esperança da cura,
você que busca o remédio descobre que não há mais bálsamo em Gileade,
e então caminha...
não há palavras a serem ditas,
e mesmo que houvessem todas seriam vazias,
e você vive em um mundo de brevidade,
que tão rápido se desfaz,
vem dessa forma, a lembrança da época em que você andava de mãos dadas,
não há mais mãos para segurar,
não há mais olhos para com os seus cruzar,
não há mais corpos para abraçar,
não há mais bocas, ouvidos, narizes...
e você caminha,
você, o quase ateu,
em uma busca covarde por Deus,
você, o menino da igreja que tratou Deus como dono de empresa,
agora você precisa acreditar,
você quer,
é sua saída... (não há saída).
Você fala e Deus parece não escutar,
você grita e a sua voz ecoa na caverna de horrores,
e você se contorce em dores...
a verdade sobre você , sobre o impostor, surge somatiza em cada um dos seus órgãos,
o seu coração é um recanto de inveja, orgulho e mentira,
o seu intestino é abjeto como a sua vontade de ter além do necessário,
o seu pulmão é negro como a cirrose da traição,
seu estômago é volumoso como a sua luxúria,
sua cabeça e pensamentos são tão desenfreados como a sua ira,
seus braços são punhais e sua pernas perdição.
O mundo estão tão escuro,
talvez seja ele seu nítido retrato,
já não há luz para acender,
água boa de se beber,
e com fome e sede você caminha,
nem estrada há mais,
apenas uma pequena e tão apertada trilha,
a escuridão nesse lugar te faz lembrar mais de você,
você que já não anda,
se arrasta,
tudo o que pode é reconhecer que ser “ser-humano” cansa,
depois de um tempo,
um misto de náusea, angústia e depressão te possuem,
além da caverna de horrores,
muito além da caverna de horrores que você é,
ao longe,
uma fagulha de luz te mostra que o seu fim,
o fim da trilha,
o lugar de onde não dá para passar,
acaba em uma caverna,
sem sol,
sem chuva,
sem lua,
sem estrelas,
sem vida,
você já nem se pergunta que mal pode haver nisso,
com um ar tranquilo você se aproxima,
e lá você percebe que sempre é possível descer um nível além do qual se está,
tudo o que você descobre,
é que aquele buraco que você bem poderia chamar de lar,
está putrefato,
tem o cheiro da morte,
você está em um cemitério,
em uma cova,
sentado ao lado de um morto,
você chega a se questionar se o cheiro da morte é seu ou dele,
e então chora sem esperança alguma,
sua vida não tem sentido,
você está vivo no seu velório,
condenado a ser um zumbi,
tudo o que você quer é sair dali,
mas ali pode ser você,
No entanto, se arrastando e trocando os pés pelas mão você saí do sepulcro,
e lá fora é tão vazio quanto dentro do seu ser,
a eterna noite sem lua,
suas pernas estão pesadas,
seu corpo não te obedece,
em agonia você se senta,
coloca a cabeça entre as pernas,
e rompe em soluços e lágrimas,
o mundo está todo em suas costas,
o pior... você está em suas costas,
você... o seu maior peso,
você olha olha para a caverna do morto,
mas é mais podre que aquele lugar,
não existe outra caverna de horrores a não ser a que está dentro de você,
de repente tudo fica claro,
você é podre, imundo, sujo e tenebroso,
você...
o vaidoso, o mentiroso, o adúltero,
o ladrão, o invejoso, o iracundo,
o rebelde, o fofoqueiro, o covarde,
o idólatra, o feiticeiro, o glutão,
o soberbo, o egoísta, o incrédulo,
o devorador de pecados,
o poço de horrores,
com dificuldades você se levanta,
decide viver enterrado,
você quer a caverna dos mortos,
pé após pé você chega lá,
e tudo escurece... não há morto!
Você se pergunta se não foi uma projeção da sua própria vida,
mas que vida?
Você parte em busca de alguém,
do inteligível, da explicação,
mas na noite fria em que sua vida se tornou,
só há o mistério insondável de todas as coisas,
você está cansado das máscaras e papéis que desenvolveu,
você se rende e finalmente aceita que não é um bom menino,
não é tão corajoso ou honesto,
verdadeiro ou santo,
amoroso ou compreensivo,
você não é tão família como costuma dizer,
cada aceitação é um processo cirúrgico sem anestesia que dilacera seu ego,
finalmente você aceita que algo te machuca,
você não é tão forte,
não é de ferro,
parece mais um castelo de cartas que desmoronou,
e tudo se acaba...
sua nudez está exposta diante de todos...
mas pela primeira vez você não quer fugir.
Então em meio às suas sombras ele aparece,
o morto ao seu lado,
o verbo ressuscitado,
o jardineiro fiel,
você não entende nada,
mas seus olhos se encontram com os dele,
as palavras se tornam obsoletas,
as justificativas não mais existem,
de pé vocês andam lado a lado,
só aquela presença inexplicável te basta,
em um primeiro momento pouco importa saber o destino da caminhada,
a realidade é que agora está tudo bem,
e o jardineiro fiel está te levando de volta para o jardim,
a sua casa jamais conhecida,
o seu único lar,
a sua cidade amada,
tudo agora está claro,
tudo é paz,
ao seu lado o jardineiro caminha...
fevereiro/março 2007
Terra Prometida
O meu nome é “EU SOU”,
e tenho tantos outros que qualquer homem diante da minha glória se arrepia,
quando criei esse mundo grande do qual EU SOU a porteira,
nunca houve no céu tanta festa e alegria,
e se vosmecês pensam que me deixei levar por tanta euforia,
aí é que se enganam,
criar o mundo e tudo que nele há,
sol, lua, estrela, terra, mar, animais, árvores, a humanidade e tudo mais,
é coisa que exige esforço e dedicação,
ainda mais quando se projeta a obra magnífica para seis dias,
e para arrematar como o bom artista que sou,
deixei pro fim a obra-prima,
reguei a terra com minhas lágrimas,
e nela meti as mãos,
fiz barro que foi uma sujeira só,
mas lá no fim estava ele, o homem,
olhei pra'ele e inda uma coisa faltava,
é bem verdade que o cabra comigo se parecia,
aquilo me deu um baita orgulho,
vejam só, a minha imagem refletida na minha obra-prima,
fiquei tão engrandecido com tudo aquilo que ali se passava,
que enchi meus pulmões com ar,
que o meu sopro foi quase uma ventania,
e quando o vento virou brisa estava o homem cheio da minha vida,
e Eu disse cá comigo,
agora descansarei,
no entanto não resistia,
todas as tardes trocava uma prosa com o cabra que criei,
e antes que vossas imaginações criem asas,
foi num jardim que o plantei,
fica lá pras bandas do sertão,
e desde já vos asseguro que nem com mapa do tesouro o encontrarão,
e agora o que vou lhes contar,
é com pesar e decepção,
estavam lá o homem e sua mulher cuidando da criação,
e tendo sempre du'bão,
quando o tinhoso-cão lhes fez uma proposta de cabra da peste,
“dão só uma mordida nesse gerimum”, disse ele,
“que vocês vão ser como aquele que os criou, donos de tudo, até do agreste”
nem tempo se deram para pensar,
e desde aquele dia o meu sopro de vida começou a neles vazar,
e é assim que a morte,
bem como a fome, a peste, a doença e todo tipo de mal se tornou uma sina pra todo homem carregar,
e agora ouçam o que lhes digo,
se vocês perguntarem para mim o nome de todos homens que há,
sei dar conta de cada um deles,
até dos que ainda estão para respirar,
no entanto, para fins de demonstrar pra onde leva a desobediência,
um só sobrenome para todos há,
“Pecadinos”,
mas que nenhum quer abraçar,
e desde a queda são todos “pecadinos” na vida,
iguais em tudo na sua triste sina,
morrendo cada qual de morte igual,
seja ela na emboscada, na peixeira, na espingarda, na granada, de doença ou até natural,
e se não se achegam a mim ainda tem o agravante da morte espiritual,
mas, agora, sem mais delongas,
vos peço licença para mostrar a trajetória de um cabra minguado do sertão,
o nome não importa,
por isso vamos dar a ele o sobrenome que lhe cabe nesta vida,
eis aí diante de vós a peregrinação de “pecadino” da silva!
Desde que nasceu o cabra inda menino tinha na cuca uma idéia sem igual,
“vou sair desta terra onde a sina é trabalhar de sol a sol”,
queria vida melhor e se possível sem tanto suor,
mas o fato é que a vida foi passando e “pecadino” de menino se tornou homem do bem crescidinho,
e um dia sem ninguém avisar fez uma trouxa de roupa e se pôs a caminhar,
andou, andou, andou...
tinha plano traçado: “é no sudeste, cidade grande que quero chegar,
lá minha estrapiada vida vai com certeza mudar”,
e “pecadino” anda,
sua triste sina é como os outros homens se arrastar,
e o dinheiro acaba,
na estrada carona não há,
“pecadino” às vezes por falta de comida passa a “variar”,
mas quem tem um sonho não deixa ele pesadelo se tornar,
o homem com a roupa suja e a esperança embotada pára para descansar,
e descansando ele vê que está perto de um bar,
lá, “pecadino”, vê que o ser humano tem índole má,
prostituição infantil, prostituição de tudo o que é jeito que há,
homem bebendo de cair, outros aproveitando pra roubar,
e foi meio de desespero, meio de teimosia que ele se pôs a levantar,
olhou pro céu, um sol de rachar,
pensou consigo mesmo,
“vou me por a andar por que quanto antes isso fizer no meu destino vou chegar”,
o que “pecadino” não sabia é que EU, supremo criador,
escrevo certo em linhas curvas de “BRS” tortas,
e foi assim que ele um dia sem saber por que, nem pra que entrou numa igreja onde todo [pessoal falava umas línguas estranhas que nem dava pra entender,
e sentado no banco, “pecadino”, é despertado por uma proposta do homem de Deus,
pergunta mais simples não pode ter,
“quem aqui aceita Jesus, o único que o pode salvar”?
Ele levanta a mão e pela primeira vez descobre que até cabra macho, diante de meu filho, não consegue não chorar,
disseram a “pecadino” que agora ele tinha um novo coração,
isso era coisa que não dava pra ele entender não,
mas com uma afirmativa de cabeça ele faz assentimento,
conta pro pastor que está indo pro sudeste nova vida começar,
o homem de Deus ri e lhe diz que agora ele é cidadão da cidade mais bonita que há,
“pecadino” olha com estranheza como quem não entende o que se passa,
o pastor, então, lhe fala de uma tal “Jerusalém Celestial”,
cidade tão bonita com ruas feitas de pedras preciosas, ouro, prata e do melhor material que [há,
diz ainda o homem que lá não há dor, nem choro, nem morte,
e que todo cidadão de lá é imortal,
“pecadino” sorri ao pensar em lugar tão descomunal,
e se sente mais forte,
veja só, ele agora é um imortal,
ele se despede e segue a sua sina,
no caminho para o sudeste uma mulher prenha ele pára pra ajudar,
quando era menino muito parto viu,
e agora na estrada só com um pouco d'água,
é a sua vez de fazer mais uma criança vir ao mundo e berrar,
o nome da mãe não pode ser mais comum,
“Maria”, grita ela do fundo de sua dor,
“pecadino” pede a ela que faça força pois o rebento para fora quer pular,
e depois de hora,
ele diz a ela que nasceu menino,
“Qual nome quer lhe dar”?
Ela diz, ainda gemendo, “Emmanuel, pois nome melhor não há,
é que eu quero sentir que Nosso Senhor perto de mim está”,
“pecadino” se emociona e diz: “Então feito está, Emmanuel ele vai se chamar”,
e num gesto de engraçada onipotência ele levanta o bebê no ar,
e conta pro mundo que ele nasceu,
e se volta pra mim e com certa intimidade se põe a orar,
e no fim da sua oração ele me diz: “Todo-Poderoso toma que o filho é teu”,
e “pecadino” mal sabia que nessa oração maior verdade não há.
Um dia chega a São Paulo,
depois de muito tempo vagar,
consegue numa favela morar,
ele se sente pequeno,
a gente da cidade grande olha pra ele com cara desconfiada, outros nem são capazes de o enxergar,
no morro ele vê toda tristeza que o mundo pode dar,
traficante, ladrão, assassino, e polícia corrupta querendo a droga e o morro controlar,
“pecadino” vê muita morte besta,
mas ele não quer desistir,
“Com Jesus, Nosso Senhor” ele sempre pensa “a sorte um dia há de me sorrir”,
“pecadino” é gente boa,
na favela ninguém tem nada para dele reclamar,
e foi numa sexta-feira santa bem de madruga que o emprego finalmente acaba por lhe acenar,
trabalho honesto,
Ele pensa, “uma família agora posso criar”,
mas acontece que ao sair da firma,
um tiroteio arrebenta por lá,
e uma bala perdidamente traiçoeira acaba por o acertar,
vai direto pro coração,
a fonte da vida,
“pecadino” tomba no chão, o sangue a escoar,
ele só tem tempo pra uma frase deixar,
“está ficando escuro, agora eu vou mais é descansar, Deus meu, Deus meu, logo agora que a [minha sorte ia mudar”?
Pra “pecadino” nem funeral há,
é enterrado numa vala comum,
sua morte não é registrada por qualquer presente,
sua sorte é até na morte ser pequeno, nada mais que um mulecote,
a única terra que lhe coube na vida é esta,
sete palmos, dois metros de comprimento por um de largura,
mas o que “pecadino” não sabia era que só depois da sua morte sua sorte ia mudar,
aquela cidade que o homem de Deus havia falado existe e é lá que ele foi parar,
vestido todo de branco como todos por lá,
alguém lhe sorri e diz que seu nome “pecadino” não é mais,
e ele ganha um novo nome,
que de tão bonito nem dá para falar,
e ao se tocar ele sente a eternidade dentro de si,
e ao coro bonito quer se juntar,
pois só cantam música da boa em tudo que é língua que há e o bacana é que todo mundo se entende por lá,
“Santo, Santo, Santo”, ninguém para de cantar,
e quando ele levanta a cabeça um Homem ele passa a avistar,
o cabra é bonito e dele sai uma luz quase de cegar,
é tanta paz que dá até vontade de pular,
a impressão que tem é que ele já viu o moço em algum lugar,
e quando ele pergunta, a resposta que lhe vem é de assombrar,
“Emmanuel é o Deus que conosco aqui sempre está”,
e num instante a realidade se põe a girar,
e quando pára ele pensa ter visto o bebezinho da estrada no “Santo EU SOU” a lhe acenar,
e sua alegria é mais radiante,
na Jerusalém Celestial ele caminha por ruas jamais sonhadas,
e nada em rios que transmitem vida pura,
galardão é o que mais há,
e na sua imortalidade ele é contente,
Eu, o Dono da vida, sou-lhe sempre presente,
Ele é cidadão e todos o enxergam,
ainda que ele seja servo pequeno por demais,
ele tem um nome tão bonito que nem dá pra contar,
e tudo o que ele faz é o joelhos dobrar,
ele que sonhou em trabalho e descanso,
agora só quer se por a cantar,
“Santo, Santo, Santo é o Emmanuel que comigo sempre está”,
e EU do meu alto e sublime trono fico a contemplar,
e é com um certo orgulho mal disfarçado que me ponho a pensar,
“e não é que o meu menino do sertão seu sonho conseguiu realizar”?
Depois das sua peregrinações e andanças pela Terra,
na Grande Cidade ele conseguiu chegar...
2004-2007 (poesia escrita nesse intervalo de tempo)